abandono reverso

Personagens:
.Marguerite Gautier, A Dama das Camélias
.Ofélia, filha de Polônio
.Medéia, ex mulher de Jasão
.Penélope, mulher de Odisseu
.Menina
.Mulher
.Velha


Cena I

No palco, menina, mulher e velha bordam e cantam uma canção, sentadas em fila, formando uma imagem que se aproxima muito das três moira-parcas. Menina continua a cantar enquanto se desenrola a cena abaixo e vai até a beirada do palco, com os pulsos sangrando muito. Olha para o chão da platéia como se fosse ali um precipício.

MULHER
Um dia, eu estava andando na rua, e passei na frente de uma floricultura. Vi umas flores lindas. Eram flores de maio. Só florescem em maio, e suas flores são iguais as folhas, mas de outra cor.

VELHA
Mas era outubro.

MULHER
Mas era outubro. Perguntei ao florista: Essas são que flores?

VELHA
Flores de maio.

MULHER
Mas estamos em outubro e eu achei que. Bem, essas flores...

VELHA
Pra que é que serve estufa, minha senhora?

MENINA
(sem se mover)
Vamos?

MULHER
Não podemos.

MENINA
Por que?

VELHA
Estamos esperando.


Cena II

Entra Ofélia, e vai até a menina. Marguerite entra e fica no lugar em que Menina estava na abertura, formando a mesma imagem.

MENINA
Mãe?

Ofélia não responde. Menina olha para ela.

MENINA
Eletrochoque?

Ofélia não responde.

MENINA
Você tomou eletrochoque?

OFÉLIA
Desculpe, senhorita, mas não a conheço.

MENINA
Nem eu. Nem eu me conheço. Quem se conhece? Os médicos. Bem, enfim. Não se aplica mais eletrochoques nessas clínicas, né?

Tempo. Ofélia olha a menina, faz que vai sair. Menina se interpõe.

MENINA
Não vai ainda. Estou sozinha há tanto tempo.

OFÉLIA
Preciso ir até meu pai, entregar-lhe... Preciso vê-lo.

MENINA
Já é dia de visita?

Ofélia não entende. Tenta sair.

MENINA
Por favor, fica. Fica mais cinco minutos. Mesmo que você seja uma alucinação. (tempo. Ofélia fica) Você é uma alucinação? Nunca tive alucinações, seria bom, até, pra matar a solidão.

OFÉLIA
De quem és filha?

MENINA
Como?

OFÉLIA
Quem é teu pai, tua mãe? Serves a que rei? Nunca a vi em Elsinor.

MENINA
Elsinor? Aqui é Elsinor? Ok. Não tinha saído ainda da ala de agudos. É a primeira vez que saio. Mas acho que vou voltar, já que você é uma alucinação. Uma alucinação é aguda, não? Posso estar louca de novo.

OFÉLIA
A senhorita não me parece louca. E eu não sou alucinação.

MENINA
Não pareço louca pra mim também, mas eu posso negar minha loucura e você pode negar que é uma alucinação. Tudo isso é muito confuso. Eles dizem: você quer morrer, mas como ter certeza? Nem isso sei se quero. Essa coisa, “ser ou não ser”.

OFÉLIA
(assusta-se)
Que disseste?

MENINA
Ser ou não ser. Não é assim? Quem disse isso? Tanto faz, sei lá.

OFÉLIA
O príncipe Hamlet disse isso.

MENINA
Pode ser. Não gosto muito de ler.

OFÉLIA
Mas conheces o príncipe?

MENINA
Não. Quer dizer, acho que não. É isso o que tenho que responder?

OFÉLIA
Estás mentindo, como ele? É por ti que ele me abandonou? Disseste que estás louca e ele... É por ti que ele está padecendo de loucura?

MENINA
Que é isso, ou! Tá louca? Bom, que pergunta! Claro que tá. Pra tá aqui, duas alternativas: Tá louca ou é minha alucinação. Como eu imagino que eu conseguiria entender o que minha alucinação quer, você existe e tá louca. Na verdade ou eu estou louca, ou você. Se eu estou louca, você é uma alucinação. Se você tá louca... Quem sabe... é bem possível, eu sou uma alucinação sua, e nada disso aconteceu. Posso ser acusada de louca por esse raciocínio, não?

OFÉLIA
Senhorita, foi um prazer conhecê-la, mas devo retirar-me. O príncipe Hamlet feriu gravemente as leis do decoro com o rei, e devo... devo estar ao lado de meu pai. (tenta sair novamente)

MENINA
Não. Alucinação chata! Fica. Eu que mando aqui. Sendo louca, ou sendo alucinação eu ordeno que fique. Se você é louca e eu sou sua alucinação, vou te perseguir onde você for. Se você é a alucinação, você não pode sair à hora que quer, né?

OFÉLIA
Nos dois casos, eu posso. Considerando que não sou louca e muito menos alucinação, e que és simplesmente uma menina tola e talvez esteja pregando-me uma peça com o príncipe. Ele deve estar aqui, atrás da tapeçaria talvez. Talvez seja eu mais uma das cortes dele e ele se divirta em zombar de mim. De qualquer forma, senhorita, devo me retirar.

MENINA
Como você tem tanta certeza de quem eu sou? Não me lembro de príncipe algum.

OFÉLIA
Gostaria eu também de não me recordar senhorita, parece-me que todo o reino resolveu beber da fonte da loucura se protegendo da verdade! Aleguemos loucura e nos livremos das responsabilidades, das promessas. Perjuremos na falta de lucidez. Vai, dá-me de beber nestas tuas águas também. Conte-me, como ficaste louca, senhora? Foi o príncipe que ensinou-te?

MENINA
Eu não sou louca. Nem sei direito como cheguei aqui.

Tempo. Ofélia vê os pulsos da Menina.

OFÉLIA
Senhorita, estas marcas, o que são?

MENINA
Dizem que é auto-multilação. Dói, dói tanto por dentro... No começo, me cortei por sentir que a pele podia doer menos do que a cabeça. Eram pequenos cortes. Foram aumentando. Aumentando.

OFÉLIA
Quando penso tais bobagens, ponho-me a rezar. Mas agora, nem as rezas, senhorita, nem elas trazem paz a minha alma. Não sei se os anjos do senhor me perdoariam agora.

MENINA
Nunca rezei, não sei. Se soubesse, rezaria por nós. Por mim e por você, minha alucinação.

OFÉLIA
Posso ensinar-te a rezar.

MENINA
Não sou merecedora de rezas.

OFÉLIA
Todos são, por que não você?

MENINA
Eu sou louca.

OFÉLIA
Pois dá-me tua loucura, te ensino minhas rezas.

MENINA
Minha loucura? Não posso te dar minha loucura. Mas posso te dar a cura, o que talvez te enlouqueça. Me deram esses remédios, embalados. Achei feios. Todos quadrados...! Misturados parecem mais drogas do que remédios. Olha (tira um frasco com muitos remédios coloridos) O importante é não se confundir. Tem o laranja e o verde. Gosto desde que é marrom. Este aqui é pra dormir, este pra acordar. Este serve pra clarear a mente, este é mordaça química. Calmante, relaxante, excitante. Tipo um E, sabe? Este aqui controla meu humor, este aqui acaba com os efeitos colaterais deste azul.

OFÉLIA
Podemos começar com uma Salve Rainha:

Ofélia vai ensinando a Menina, que repete a reza quase simultaneamente. Enquanto isso, a Menina vai dando os remédios, um a um para Ofélia, que fica com dificuldade de falar, mas continua.

OFÉLIA
Salve, Rainha, Mãe de misericórdia, vida, doçura e esperança nossa, salve!

MENINA
Salve, Rainha, Mãe de misericórdia, vida, doçura e esperança nossa, salve!

OFÉLIA
A Vós bradamos, os degredados filhos de Eva.

MENINA
A Vós bradamos, os degredados filhos de Eva.

OFÉLIA
A Vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas.

MENINA
A Vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas.

OFÉLIA
Eia, pois, advogada nossa, esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei.

MENINA
Eia, pois, advogada nossa, esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei.

OFÉLIA
E depois deste desterro mostrai-nos Jesus, bendito fruto do vosso ventre

MENINA
E depois deste desterro mostrai-nos Jesus, bendito fruto do vosso ventre,

OFÉLIA
ó clemente!

MENINA
ó clemente!

OFÉLIA
ó piedosa!

MENINA
ó piedosa!

OFÉLIA
ó doce!

MENINA
ó doce!

OFÈLIA
e sempre,

MENINA
e sempre,

OFÉLIA
Virgem Maria!

MENINA
Virgem Maria!

OFÉLIA
(já com grande dificuldade em falar por causa dos remédios)
Aí eu digo: Rogai por nós, Santa Mãe de Deus. E você responde: Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.

MENINA
Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.

Ofélia engole os remédios.

OFÉLIA
Amém.

Penélope entra no fim da reza das meninas, vai para perto da mulher e olha-a.

Cena III

PENÉLOPE
(para mulher)
Aqui é a sala de espera ?

MULHER
Sim, assim espero.

Marguerite se levanta. Penélope ocupa o seu lugar. Marguerite entra em cena apressada enquanto Ofélia toma os remédios e Menina repete a reza.

MARGUERITE
Nanine! (tempo) Nanine! Onde se meteu essa criada? Nanine!

Menina levanta-se num susto, Marguerite continua, sem perceber que não se trata da sua criada, Nanine. Ofélia pega o pote de remédios e continua tomando-os, sozinha.

MARGUERITE
Vamos lá! Ajude-me! Ou terei que retirar esse espartilho sozinha?

MENINA
Desculpe. (começa a ajudar)

MULHER
(para Penélope)
Você também esta a espera?

Penélope acena com a cabeça, que sim.

MARGUERITE
Dos poucos prazeres que essa vida me dá, andar no campo é um deles. Pena que tenhamos que usar tantas roupas! Ajude-me com o laço! Que chateação! Paris fica encantadora na primavera, mas não há nada como o campo. Tantas flores, que as camélias desfazem seu sentido! (percebe que não é Nanine) Quem é você?

MENINA
Foi mal, moça. Eu tava aqui... Desculpe.

MARGUERITE
Como entrou?

MENINA
Eu tava rezando ali... e... (vê Ofélia tomando os remédios)

MULHER
(para Penélope)
Há muito tempo você espera?

PENÉLOPE
É só o que faço.

MENINA
(para Ofélia)
Não! Não pode tomar todos assim! Você tá louca? (tapando o pote) Guarda isso!

Penélope começa a fiar, e a Mulher começa a tecer, durante a cena que segue.

MARGUERITE
Quem são vocês?

MENINA
Ela é (percebendo que não sabe. Para Ofélia) Quem é você?

OFÈLIA
(começando a se sentir mal por causa dos remédios)
Eu?... Ofélia, filha de Polônio.

MENINA
Ofélia, filha de Polônio (sem entender se refere à Ofélia ou a ela mesma) Muito remédio!

MARGUERITE
Não importa, agora. Vamos ajudem-me! (Menina e Ofélia começam a ajudar. Ofélia muito tonta. Não consegue) Meninas! Um homem é capaz de tirar essa roupa mais rápido do que vocês me ajudam! Vocês são ajudantes de Nanine?

MENINA - Moça, não sei quem é essa aí não! Eu só estava dando uma volta em ... (para Ofélia) como é que é aqui?

OFÉLIA
Castelo de Elsinor!

MENINA
Castelo de Elsinor! Me mandaram vir aqui... Acho que estão me preparando para alguma coisa.

MARGUERITE
(olha-a mais um pouco)
Compreendo... mandaram as duas aqui, não é? E estão preparando... Quantos anos têm?

MENINA
Quinze.

MARGUERITE
Já estão na idade! Pois bem, vou ajudá-las. Aproveite, que vocês são as ultimas! Estou prestes a aposentar-me!

MENINA
Hoje tá todo mundo querendo me ajudar, heim? Essa me ensinou a rezar, quer ver? (as duas recomeçam a rezar)

MARGUERITE
O que é isso? Meninas! Vocês não estão num convento!

OFÉLIA
Não? ... Não! Vou para um convento!

MARGUERITE
Vamos, guardem as rezas para momentos mais próprios. Para quando vier por cima de você um velho, um porco ou um daqueles que sua e urra! Ou para momentos como o meu: Agradeço a Deus todo misericordioso o fim dos meus dia no meretrício!

Ofélia entende o que é meretrício, Menina não.

OFÉLIA
Meretrício, senhora? Então será esse o meu fim?

MENINA
Você está saindo?

MARGUERITE
Sim! Ainda que uns ajustes devam ser feitos!

MENINA Você não tá mais louca?

MARGUERITE
Louca? Louca de amor! E loucos de amor são todos perdoáveis!

MENINA
(pára Ofélia)
Você acha que ela vai sair mesmo?

OFÉLIA
Não. Estamos todas perdidas!

MARGUERITE
Sim ! Todas perdidas. Aqui é a casa da perdição, não é assim que dizem?

MENINA
(para si)
Não acho que ela realmente exista!

Marguerite pega malas e muitas roupas e espartilho

MARGUERITE
O que levar?

MENINA
(espantada com as roupas)
Como deixaram que você ficasse com tudo isso? Pra mim não deram nada!

MARGUERITE
Ainda Não! É preciso saber pedir! Você concede seus favores em troca de algo. O algo é a questão! O duque, por exemplo... Concedeu-me um presente de dois mil francos ao mês e pelo quê? Passeios, meninas, passeios no campo!

MENINA
Mas...você é paga para passear?

MARGUERITE
(ri)
Oras! Não sou uma dama de companhia?

OFÉLIA
Não acho graça, senhora! Acho que somos tristes!

MARGUERITE
Tristes?! Não! A tristeza se espanta com as festas, o teatro e (tira de dentro da mala um vinho) O vinho!

Tira a rolha, enquanto as meninas pegam taças aos pés da Velha. Servem. Brindam. Marguerite bebe e começa a tossir, muito severamente! A Menina breca Ofélia.

MENINA
(para Ofélia)
Você não pode. Os remédios!

OFÉLIA
São todas ervas, senhorita!

Bebe. Engasga. A Menina permanece no centro com o copo na mão. Leva-o a boca algumas vezes, mas não bebe.
Medéia entra, senta-se no lugar da Velha, aproxima-se da Mulher, ao fundo forma-se a “1ª imagem”: Penélope – Mulher - Medéia. Na frente a “2ª imagem”: Ofélia – Menina - Marguerite. Enquanto essas imagens são formadas, num outro ritmo, há a cena seguinte.


Cena IV

MEDÉIA
Quem és?

VELHA
Ninguém.

MEDÉIA
Pois que ninguém se retire. Vim também tomar parte na dança.

VELHA
Ninguém irá se retirar! Quem és tu?

MEDÉIA
Não chegou até aqui a minha fama?

VELHA
Não. Quem és?

MEDÉIA
Medéia (fala diretamente ao público)
Pois que ouçam então todos o que vou agora narrar:
E não são os feitos dos homens, mas os feitios meus.
nasci em Colcos, filha de Eetes,
Mulher, destemida heroína, sou!
E donde nascem os feitos para além das ações?
O que são as ações além das narrativas de mim?
Pois quando vim ao mundo já sabia o que serei e sou:
Aquela que pega o tempo em mim e age a história.
Sou, fui, ainda serei a marca das horas no corpo.

Já não tinha pouca idade, quando à praia, abraçada ao vento,
Vi o aportar dos navios
Saíam homens que cheiravam a luta, respiravam porvir.
E vieram.
As aspirações dos homens, é o agir das mulheres.
Pois pensam eles serem a ação, quando são só
espaços, buracos, onde nós mulheres encaixamos nosso ser.
Mas pensam eles que somos nós, porto.
Então me fiz porto pros navios.
Dizem que era amor, digo: sede.
Tinha sede, e ao mar cedi.
Vinha ele em busca de fios de ouro,
e outros fios o envolveram: os meus
teci minhas tramas de amarrar.
Tinham provas a cumprir,
já não recordo: eram touros de cascos de bronze,
que atrelados a um arado e respirando fogo,
deveriam escavar as trilhas
onde seriam dentes de dragões plantados.

Ah! Que bobagem esta dos homens
submeterem a si próprios a aventuras!
Já na época achei-as tolas
e hoje, me recordo como é simples
para uma mulher livrar-se delas!
Então surgi. Ou então insurgi
perante Jasão, de longos braços. Algo imponente: uma criança.
Portava-se com a pompa dos meninos que ganham armas
e não sabem eles que o poder está nas palavras.

Fiz o que devia ser feito
O que já sabia que viria
O trato, o pacto, Acerto:
Ele teria o que bem quisesse
E meu seria.

Sabe o que contam?
que entrarei nessa história
como feiticeira apaixonada.
bárbara, cruel, sangrenta
Digo: não fiz nada que não fazem os homens
Fui simplesmente impecável.
Não havia paixão, era frieza.

VELHA
E o resto, Medéia?

MEDÉIA
Que resto? Nos restam dois filhos e dez anos de paz.

VELHA
E o que nos contam?

MEDÉIA
Já lhe disse.

VELHA
E a vingança?

MEDÉIA
Do que fala, velha?

VELHA
Da história pra ninar que nos contam.

MEDÉIA
Que história?

VELHA
Da mulher abandonada por seu marido por uma mais jovem e que lhe daria maiores vantagens. De como sofreu e de como se vingou.

MEDÉIA
Não conheço essa história, nunca me contaram.

VELHA
Só por isso é capaz de vivê-la.

MEDÉIA
Não sei do que fala. Ele não me deixará.

VELHA
Ele te deixará: neste dia, suspenso o tempo, ele já te deixou.

MEDÉIA
Estou a sua espera.

VELHA
Não. (aponta para Penélope) Ela está a espera. Mas o homem dela retornará. Não o teu.

MEDÉIA
Anda daqui velha mentirosa. Isso não é verdade! Quem é você? É isso um sonho: pesadelo. Sai daqui, xispa! Ou ainda, saio eu. (faz que vai sair)

VELHA
Fica. Você ficará. Não viria se não tivéssemos te chamado.

MEDÉIA
Quem és afinal? És um deus? És deste mundo?

VELHA
Sou só uma velha. Só um pedaço de fúria que se soltou. Uma forma, um pensamento. (tempo)

MEDÉIA
É por amor que ele fez isso? Não pode ser amor o que o move pra longe de mim!

VELHA
Foi o amor que moveu pra perto dele?

MEDÉIA
Foi. (tempo) Tínhamos um casamento, um trato.

VELHA
Um trato, pacto e não um laço. Quando os tratos se rompem, fagulham pra todos lados. Já os laços, rompidos, debandam as pontas uma para cada lado.

MEDÉIA
Que sabe você dos pactos, velha? Uma velha, com os pés na morte! Nada tem a perder. Eu tenho filhos! Onde vou criá-los? O que sabe você da minha dor?

VELHA
Tudo. Sei tudo. Olha pro teu legado! Viva você sua sina, Medéia. Vai, eu incito tua vingança: Jasão depois de tudo que fez por ele te abandona por uma mulher mais nova, ainda cheia de viço, e rica. Como se não bastasse, você é estrangeira no reino. Traiu seu pai e portanto é bastarda também nas tuas terras. Matou seu irmão. Matou reis em outros cantos. Armou tal armadilha para si, que pensando estar prendendo Jasão, prendeu você mesma o pé dele. Veja, é ao pé que se prendeu: num chute ele te afugenta.

MEDÉIA
Eu custo em acreditar na partida, mas já há em mim um certo gosto na vingança. Como repentinamente doem todas as minhas entranhas? Como se podem arrancar o coração de um peito sem que se coloque nada lá no lugar?

VELHA
Era um coração que tinha aí? Um pedaço do pacto? Tiremos o coração, e coloquemos lá a dor. A repulsa. A vingança. Todos os ódios do mundo.

MEDÉIA
Achei que dos anos ao lado, tinha em meu peito se embrenhado o amor...

VELHA
Ah! O amor! E dele te brotam o ódio, dor e vingança! Que sejam eles que impulsionem teus passos.

MEDÉIA
Não deixarei que passe assim por mim. Eu tudo posso contra ele.

VELHA
Risca na história o legado da vingança. E, desde então, todas mulheres te lembram.

Velha cruza a cena, fica num canto diferente, observando tudo. Formam-se com clareza as duas imagens das três mulheres. Mulher olha para Penélope e para Medéia. Menina vê Marguerite bebendo e tossindo e Ofélia bebendo. Menina não bebe do vinho.

Cena V

MARGUERITE
Vamos meninas! Bebam! (olha para Menina) Vejamos! Não conseguirá nada com este corpo! Vamos ver o que podemos fazer (pega um espartilho na mala) Vista-o. (Menina não sabe o que fazer. Ofélia ajuda-a a vestir o espartilho, Marguerite começa a amarrá-lo) Assim, vamos delinear essa cintura!

MENINA
Senhora. Acho. Não sei. Talvez devêssemos parar com isso. Tenho medo. Medo de estar de novo... Sabe? Prometi a minha mãe. Não posso de novo... enlouquecer!

MARGUERITE
Enlouquecer! Que coisa! Pelo quê?

OFÉLIA
Por causa dos homens?!

MARGUERITE
Eles podem nos levar a loucura, mas é preciso que saibamos manipulá-los. Manipulá-los, quando eles acham que eles tem o controle. Também isso na cama é de grande serventia. Deve deixar sempre que eles pensem que são os melhores, os principais, e que cumprem as funções muito bem. Entende?

MENINA
Você tá falando de sexo?

Ofélia ri, pequeno nervosismo.

MARGUERITE
Sim!

MENINA
Não sei nada sobre isso.

MARGUERITE
Ainda é donzela?

MENINA
O que você quer dizer com isso, dona? Se eu já... dei?

MARGUERITE
Menina, onde aprendeu esses modos? É, pergunto se já esteve intimamente com um homem.

OFÉLIA
Não! Quer dizer...

MENINA
Um só, uma vez, numa festa. Mas não me lembro direito.

MARGUERITE
Estava bêbada?

OFÉLIA
Não. (fica tristíssima) Gostaria de ainda ter essa desculpa.

MENINA
Não quero falar nisso.

MARGUERITE
Vejo que se dará bem nessa vida. Eis uma lição: damas da noite não tem ontem. Nem amanhã. Não construa nada para o futuro, não recorde o passado, viva a vida de hoje e fique feliz se hoje ainda vive bem. Não projete. É provável que morra cedo, ou que percam o interesse em você. Concentre-se no imediato!

OFÉLIA
Porque vivemos então? Preferia morrer!

MENINA
Não fala isso alto! Shhhhhh!!!! Vão novamente nos fechar naquela sala!

MARGUERITE
Já não lhe disse para não fazer planos? Concentre-se em ser feliz agora!

MENINA
E o que é ser feliz?

MARGUERITE
A felicidade pode se apresentar de várias formas. O Amor é uma espécie de felicidade!

MENINA
Não acho que o amor seja real. Acredito mais nas rezas. Elas sim me colocam na realidade. Sou uma degredada filha de Eva, num mar de lamúrias!

MARGUERITE
Ah! Já não te disse para esquecer as rezas? Elas de nada te servem, nem de conselho, nem de consolo! Veja como ficou mais formosa com o espartilho

Menina se sente sufocada. Com dificuldades na fala, querendo ir embora.

MENINA
Não gosto dessa roupa. Não me sinto melhor nela do que nas camisas de força daqui de... (para Ofélia) Onde é mesmo?

OFÉLIA
Elsinor!

MENINA
Elsinor!

MARGUERITE
Quem bonita quer parecer, um pouquinho tem que sofrer! Venha, dance comigo. Vamos ver como se comporta com esse novo corpo.

MENINA
(não conseguindo se mexer direito)
Eu não quero dançar. Eu não quero fazer nada! Eu quero ficar aqui, sentada parada! (começa a repetir a reza incessantemente) Salve, Rainha, Mãe de misericórdia, vida, doçura e esperança nossa, salve ! A Vós bradamos, os degredados filhos de Eva. A Vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas. Eia, pois, advogada nossa, esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei. E depois deste desterro mostrai-nos Jesus, bendito fruto do vosso ventre, ó clemente, ó piedosa, ó doce e sempre Virgem Maria.

MARGUERITE
(fala em cima da reza da Menina)
De nada vai te servir a rebeldia, ou a exclusão. De nada serve essa tua reza, além de excluir-se mais do mundo! Ou bem aceita o fato, ou vai morrer de fome, de frio, de alguma doença. Ou aprende a trocar com os homens, vencendo-os, ou vai para a rua e perde-se entre eles. Não vai demorar muito para que seja violentada, uma menina bonita como você. Eles vêm de qualquer maneira a rebaixar-nos a meros corpos, usar-nos e cuspir depois em cima, com seu dinheiro ou com seu suor. São poucos, ouviu? São poucos aqueles que podem e merecem ser amados por nós mulheres. E quando um por um tiver te satisfeito com seu corpo pelas ruas, nada restará da beleza. E quando não restar nada da beleza, o que restará? E então: prefere que escolha teus amantes e receba presentes; ou ficar rezando clamando para aí sim ser uma degredada filha de Eva num mar de lamúrias?

Menina, que repetiu a reza durante toda fala de Marguerite, vai parando aos poucos. Levanta-se, dá a mão para Marguerite. Começam a dançar.
Enquanto Menina reza e Marguerite fala, Ofélia reza e volta a tomar os remédios. Mulher se aproxima. Velha ocupa o lugar que Mulher estava. Olha sempre tudo muito atenta.

Cena VI

MULHER
Filha?

OFÉLIA
(num susto)
Laranja e azul. (mostra os comprimidos) Se misturar as pílulas... São ervas, senhora. Ervas em pastilhas!

MULHER
Onde vai menina?

OFÉLIA
Estava a procura de meu pai.

MULHER
Seu pai? Quem é seu pai?

OFÉLIA
Minha cabeça dói.

MULHER
Venha até aqui. (Ofélia levanta-se e vai até ela) Onde dói?

OFÉLIA
Minha cabeça. Dói, senhora. Meu peito também se comprime. Minhas partes doem. Não sinto meu corpo, e ainda assim, ele dói. (Mulher abraça Ofélia)

MULHER
Senti falta dos seus abraços, filha.

OFÉLIA
Fica perto de mim? Podes ficar comigo para sempre, mãe? Por que sumiste? Acaso morreste? Não consigo pensar direito, os pensamentos me fogem. Quem foi que? Mãe, não morreste?

MULHER
Me dói tanto pensar seu futuro, filha. Não morri por agora, aproveita a confusão e recebe esse colo-mãe, antes que todos te deixem. Ou que consiga, como tem tentado, deixar nós todos. O que te deram aqui?

OFÉLIA
Tomei desses comprimidos. Esqueci todas as rezas que me ensinaste, mãezinha. Ensina-as de novo?

MULHER
Ah filha! Se pudesse nunca ter te ensinado nada. Se pudesse de longe te amar e nunca causar os sofrimentos que te causei. Vai me perdoar um dia por te abandonar?

OFÉLIA
Eu me senti só. Eu me sinto só. Eu vou enlouquecer, mãe?

MULHER
Não pense nisso agora, aproveita ainda meu colo, que eu aproveito teus abraços. Também eu me sinto só, e que pena que não tenha conseguido te amar quando precisava! Não da maneira que você queria. Acredita em mim, que te amei o quanto podia e conseguia filha? O amor não foi suficiente? Foi por isso que se cortou?

OFÉLIA
Sinto dor. Dentro. (desprende a presilha que prende o cabelo e começa a tentar se cortar)

MULHER
Não! Não de novo, filha. Já não tinha se curado?

OFÉLIA
Mãe, dói tanto. Preciso que isso saia de mim!

MULHER
O que?

OFÉLIA
Esses pensamentos de morte. Onde está meu pai? São essas ervas, não? São elas que me fazem ficar assim. Ou foi o príncipe Hamlet?

MULHER
Alguém te feriu? Um rapaz?

OFÉLIA
Fez promessas, mãe. Mãe, eu juro pela sua alma, eu não queria. Ou queria. Como poderia eu saber que ele mentia? Mãe! Ele me feriu sim, mãe.

Velha começa a se aproximar da cena.

MULHER
Menina, o amor fere tanto! Me feriu, te feriu. Seu pai também me feriu pra fazer você. Você é a marca do amor em mim. E você ainda me dói. Me fere quando se fere. Quando cai, quando se corta. Por que não entende? Entende? Por mim?

OFÉLIA
Não sei do que falas, senhora! Tira essas ervas de mim?

MULHER
Agora é tarde. (segura as mãos de Ofélia. Tempo) Você não é minha filha. Quem é você?

Velha pega as mãos da Mulher. Esta deixa-se conduzir e fica de lado.

OFÉLIA
Ofélia, filha de Polônio. Esse é o nome de meu pai. Onde se encontra? Preciso vê-lo com urgência!

Velha toma o lugar da Mulher na cena.

VELHA
Espere mais um pouco.

OFÉLIA
Por quê?

VELHA
Quero te olhar um pouco.

OFÉLIA
Senhora, não sei quem és, não sei o fazes aqui. És a formosa rainha da Dinamarca? Preciso ver meu pai.

VELHA
Ofélia, olha para mim. Vou te conduzir ao teu fim. Não somos donas de nossas histórias.

OFÉLIA
Não o somos?

VELHA
Não.

OFÉLIA
O que sabes de mim, senhora estranha?

VELHA
Algo sobre teu pai.

OFÉLIA
Meu pai é um dos conselheiros do rei. Nada pode atingi-lo.

VELHA
A não ser uma espada ainda mais afiada. Uma espada de loucura.

OFÉLIA
Meu pai também sem juízo? Não! Mãe, essas ervas que ingeri, me ajudarão na minha história?

MULHER
Já não sei o que pode te ajudar, menina. Não soube ajudar minha filha, e agora ela também está condenada.

OFÉLIA
Quem é tua filha? É da corte?

MULHER
Não. Você não conhece. Nem vai conhecer. Nem eu reconheço mais.

OFÉLIA
Onde está seu marido?

MULHER
Não sei.

OFÉLIA
E o meu marido?

VELHA
Você não tem marido.

OFÉLIA
Sim, tenho. É o príncipe Hamlet.

VELHA
Ele não é teu marido.

OFÉLIA
Mas foi por uma noite.

MULHER
Não repita isso. Não comente com ninguém!

OFÉLIA
(para a Velha)
Não posso, não é?

VELHA
Não. Não vai perdoar o príncipe, depois do que vou te contar.

OFÉLIA
Não me contes, então, pois já não o perdôo pelo que me fez. Ou ainda: não perdôo a mim pelo que deixei e quis que ele fizesse!

MULHER
Você não tem culpa de amar! Mas os homens!

VELHA
Os homens não são bons.

OFÉLIA
Meu pai é um homem bom.

VELHA
Não existem mais homens bons.

OFÉLIA
Há ainda meu pai!

MULHER
Havia sim seu pai,

VELHA
Nem bom nem mau: um tolo.

OFÉLIA
Falas também como o príncipe! És uma mentirosa!

MULHER
Esquece o príncipe! Esquece teu pai!

OFÉLIA
Tu te esqueces de teu marido, senhora, mesmo sem saber onde ele se encontra?

MULHER
Não.

OFÉLIA
Por que pedes a mim então algo que nem tu podes fazer?

VELHA
Menina tola, como o pai. Ouve então: teu pai está morto.

OFÉLIA
Não é verdade.

VELHA
Todos já sabem o seu fim! Teu pai morreu atravessado pela espada do teu amante!

OFÉLIA
Eu não tenho amante!

VELHA
Isso só faz de você mais triste! Quem matou teu pai foi teu ex amante, do homem a quem você se entregou. O príncipe Hamlet.

OFÉLIA
Não é verdade!

MULHER
Já menti em outros momentos a você, filha. E devia ter sempre te dito a verdade.

OFÉLIA
Não sou sua filha!

MULHER
Não, não é. Me renegue o quanto quiser, já me feriu tanto quando se cortou, tentou se matar, me obrigou a te colocar nesse lugar! Nada mais pode fazer prá me ferir. Nem você, nem seu pai. Dentro de mim, seu pai não é mais nada. Mate dentro de você também.

Velha Ocupa o lugar do centro. Mulher vai até Medéia, pega dela o fio e tesoura. Coloca também o adorno que Medéia tinha na cabeça.

OFÉLIA
Pai! Pai! Se já perdi tudo, o que mais tenho a perder? (começa a corta-se).

Cena VII

Ofélia caminha até Penélope, e pega os fios, que eram brancos. Tanto os fios quanto o pano que passa pela Velha começam a tingir-se vermelho. Marguerite e a Menina ficam entre as 3 posições-MOIRAS. Menina fica extremamente confusa ao ouvir essas falas. Penélope e Medéia ganham a cena. Revezam-se na fala, ou falam simultaneamente.

MEDÉIA
Vem, que eu espero. Espero poder arrancar-te à força do peito ainda um amor qualquer que guardas por mim. Ah!Jasão, que fizeste de nós? Não era amor então? Vem! Porque não vens enfrentar-me se por ti já fiz tanto? AH! Não vem?
Não tem coragem, Jasão? O que tem é medo, o que tenho é fúria!
Deixa-me despejar nos teus ouvidos meu pranto, meu ódio e os vitupérios que te esperam.
Vou derramar na tua vida meus anos perdidos, Jasão. Vou deitar sobre seus dias o desprazer que sinto no teu abandono. Vou despejar sobre sua nova mulher tantos ódios que marcarei a raça com seu sangue. Hei de derramar seu sangue onde reste dele: Nas minhas entranhas que já sangram, no ventre de tua noiva, das veias dos teus filhos. Marcarei com seu sangue minha história. Banharei a terra com vingança, pelo seu nome. Nenhum de vocês que hoje fazem do meu sofrer zombaria sairão impunes! Pois preparo meus planos, urdindo minhas tramas, sem poupar nenhum dos meios que estão em meu poder. Vou dar um golpe terrível e por à prova a sua e a minha coragem. Viu o que tem a sofrer ainda? “A nós mulheres a natureza fez impotente para o bem; porem mais hábeis que ninguém para manipular o mal.”

PENÉLOPE
Não vens? Há quanto tempo que espero! Já começo a me esquecer de ti, tão longa é a espera, Odisseu. Não de teu rosto, teus traços, que posso descrever como se fosse algo decorado à força: teus olhos marrons, um tom mais claro que teus castanhos cabelos, tua pele bronze, como se ela mesma já fosse armadura. Mas me fogem teus gestos: já não recordo como fazem tuas mãos ao pegar a comida, e o modo que elas prendem os laços de tua sandália. Escapa-me teu modo de andar, havia um esgar de uma perna? Já não me lembro os atos simples, comuns, teu cotidiano me foge. Quando falas, já não sei se é teu modo de falar ou de outro que te imita em meus sonhos.
Mas quem se recorda de ti é meu corpo, ou ainda: meu corpo recorda o teu corpo. Minhas ancas sabem com que força tuas pernas as enlaçam e minha nuca sente a repuxada fria da tua mão em meus cabelos. Minha boca lembra o toque da tua, e meu sexo teme e anseia pela violação insidiosa do teu.
E enquanto meu corpo sente ainda as marcas da tua presença, minha cabeça se força a não acreditar na tua falta perene que preenche o aposento em que me entrevei esperando teu regresso. Teço, e enquanto teço meus pretendentes, confiantes da sua morte, matam teus bois e comem em teus pratos, e sorvem do teu vinho: festejam diariamente tua ausência, teu nunca regresso; usufruem daquilo que deverias tu usufruir. Mas não do meu corpo. Ainda não de meu corpo. Por quanto tempo suportarei. Mas teço. Teço agora minha vida.
Eu.
Aguardo.
Espero.
Tramo tua volta.
Imagino-te aqui.
Ouço teus passos.
São 10 anos de espera.
Quase não mais os desejo.
E se é a minha morte que eu desejo enquanto tramo?
Por que quando foste, Odisseu, não me libertaste? Por que permaneceis em mim como se fosses, tu presença, como se fosses atualidade? Há quanto tempo partiste? Anos? Séculos talvez? Suspendo-me no tempo, esperando-te. Firmo aqui minha certeza completa e continua pela minha existência em suspensão.
Estive errada em esperar-te?
Só não esqueço seu nome porque vivo a repeti-lo. Fora disso, não sei mais quem és.

Cena VIII

Velha aproxima-se de Penélope. Marguerite toma o lugar dela, tingindo o pano com sua tosse tuberculosa.

VELHA
Está certa, mulher. Estamos todas em suspensas.

PENELOPE
Quem é você?

VELHA
Eu já soube, um dia. Sou uma velha, eu sou uma velha velha velha.

MULHER
És uma deusa ou isso é sonho?

VELHA
Isso é vida. E os sonhos o que são? (tempo)

PENÉLOPE
São peças que nos prega Morfeu. Dizem que em seu reino há duas portas: uma feita de marfim e uma de chifres feita. Dos sonhos, uns passam pelo marfim serrado, esses enganam. Outros saem pela porta de chifre polido e quando alguém os tem, convertem-se em realidade. Por que porta passaste?

VELHA
Não sou sonho. Sou cega. Sou uma velha cega.

PENÉLOPE
E das terras da onde viestes, forasteira, ouviste notícias de meu marido? Ele regressará?

VELHA
Ouvi notícias? Ouvi toda a história, os ecos da sua história em mim.

PENÉLOPE
E então? Se aproxima o dia que acabará minha espera?

VELHA
Que te importa? Fará algo caso eu diga que sim?

PENÉLOPE
Saberei que fiz o certo.

VELHA
Fez o certo? Nada foi feito! Ficou aí, se lamuriando, esperando, uma parca tecendo o nada, para a noite desfazer a vida, perpetuar o ciclo doméstico do aguardo em nós. Fez! Nada fez, e com isso, fez tudo. O que você tece agora?

PENÉLOPE
Nada. São só fios soltos.

VELHA
Como sua vida.

PENÉLOPE
Teci minha vida, cada dia um pedaço e, não podendo nada fazer além de esperar, desfiz as tramas na noite! Pela manhã, era uma vida inteira a tecer...

VELHA
Minha vida foi toda uma longa espera! O que fiz, além de esperar? ? Olhando para você, percebo enfim! Todas nós mulheres esperamos: os filhos, os homens, a vida passar. Também esperaremos a morte, e quando ela vier, rezaremos para que seja boa, não é assim?

PENÉLOPE
Já nem me recordo o que espero. Não me recordo se o amo ou se amo esperá-lo. Não me lembro mais se gostaria que ele retornasse. Não tenho passado, aguardo o futuro, ainda que seja amendrontador.

VELHA
Ele será terrível, se não se mover daí. Vê: vermelho. Quanto sangue derramado em teu nome. Podendo fiar a vida, resolveu tecer uma mortalha? O tempo é um engodo, e estamos dentro de sua espiral, vendo a roda: não há o que faça com que ele passe, se nós mesmos não o rodamos.

Ofélia começa a cantar uma canção, um pouco sem sentido.

PENÉLOPE
Você me confunde velha! O que pode uma mulher como eu fazer além de esperar?

VELHA
(olha para Ofélia)
Talvez cantar. Talvez sonhar.

PENÉLOPE
E se for um sonho desses de marfim feito?

VELHA
Isto é um sonho?

PENÉLOPE
E os sonhos o que são?

Ofélia se aproxima dela e lhe dá os braços. Velha vai para o lado da Mulher.

Cena IX

MULHER
(fala junto com Penélope)
No meu sonho, andava de braços dados com minha filha, numa grande campina. Era sol. Ela se soltava e saía correndo até um precipício que se prolongava a frente. Não corro atrás dela, grito: “Menina! Volta!”, ela não ouve, está tomada por algo. Não sei se quero seguí-la, estou em dúvida. Olho em volta, estou só. Nada mais a fazer. Ela contempla o precipício, e não ando até ela. Vem alguém, uma mulher do meu lado. Fala comigo, mas não consigo ouvi-la, um choro alto cobre meus tímpanos. Quando percebo, é o choro da minha filha, no precipício. Mesmo tentando, agora não consigo mais ir até ela, pois a mulher me segura. Olha: é ela que cai?

PENÉLOPE
(fala junto com Mulher)
“Vinte de meus gansos saem da água e põem-se a comer trigo aqui em casa; eu os contemplo deleitada; vem, porém, da montanha uma águia enorme, de bico recurvo, e mata-os todos, quebrando-lhes o pescoço; os gansos jazem amontoados na sala, enquanto a águia se evola para o éter divino. Embora em sonho pus-me a chorar e lamentar; em torno de mim apinharam-se mulheres aquéias de ricas tranças, enquanto me lastimava por ter a águia morto os meus gansos. Mas ei-la que volta, pousa na ponta duma viga de telhado e com voz humana fala reprimindo o meu pranto: ”Ânimo, isto não é sonho, e sim uma bem augurada visão do que vai se consumar.””

Mulher continua a falar quando Penélope se cala. No fim de sua fala, Medéia diz como se completasse a fala da Mulher.

MULHER
Eu ainda olho fixo, durante um tempo, para a mulher, e começo a reconhecer seus traços. Reconheço, como num espelho minhas expressões de horror. Ela me segura, mas é com horror e júbilo. Como podemos ter medo e ficarmos felizes ao mesmo tempo? No jogo de espelhos, era eu que me segurava enquanto outra eu me segurava, e eu que me segurava. Nunca tentei me soltar. Não gritei por ajuda. Esqueci de minha filha.

MEDÉIA - “Aqui me detenho. Estremeço ao pensamento do que me restará fazer: matarei meus filhos. Não há ninguém então que possa salvá-los da morte.”


Cena X
Ofélia canta enquanto elas falam, seguida pela Menina, que continua nitidamente incomodada com tanta fala simultânea. Depois que se calam, Ofélia vai até o proscênio, com os pés muito na ponta do palco. Vai ficando mais tonta a cada palavra.

OFÉLIA
A morte Começou a rondar minha casa no dia 13 de novembro. Lembro-me bem, pois chovia. E nenhum outro dia mais chovia, sangrava! Rondava, sempre vestido de escuro, era uma sombra. Ainda faltava um mês para o nascimento de Cristo, e ela já fazia círculos concêntricos com o meu umbigo. Ela entrou por aqui, subiu pro meu ventre e ficou rondando meu corpo, e agora que chegou a cabeça já me parece uma idéia antiga, essa de morte. Como se eu sempre fosse fraqueza. Agora, é ela quem guia meu corpo.

MENINA
Espelhos são cérebros ao contrário.

Ofélia cai/sejoga do palco. Todos congelam suas ações.

VELHA
Tivemos que chegar até aqui, senhoras. Agora mais nada principia nem finda. Tudo se congela. Era até aqui que queria conduzi-las.

Vão todas até a boca de cena ver Ofélia.

MARGUERITE
Ela se jogou?

MULHER
Ela escorregou?

MEDÉIA
Foi empurrada por alguém?

MENINA
Ela quem quis?

PENÉLOPE
Não pode mais esperar? (volta a tecer aos poucos, enquanto houve a Velha)

VELHA
“Há um salgueiro que cresce inclinado no riacho
Refletindo suas folhas de prata no espelho das águas;
Ela foi até lá com estranhas grinaldas
De botões-de-ouro, urtigas, margaridas
E compridas orquídeas encarnadas
Que nossas castas donzelas chamam dedos de defuntos,
E a que pastores, vulgares, dão nome mais grosseiro.
Quando ela tentava subir nos galhos inclinados,
Para aí pendurar as coroas de flores,
Um ramo invejoso se quebrou;
Ela e seus troféus floridos, ambos,
Despencaram juntos no arroio soluçante.
Suas roupas estão infladas, e como sereia, vão mantê-la boiando por um tempo.”
Todas nós, como ela, estamos em suspensão, lembram-se?
Enquanto isso ela canta fragmentos de velhas canções, e como nós,
Está inconsciente da própria desgraça,
como criaturas nativas desse reino
Criadas para viver nesse elemento.
Mas não demorará para que suas roupas
Pesadas pela água que a encharca
Arraste a infortunada do seu canto suave
À Morte lamacenta
Como também não tardaremos nós todas
A cumprir nossa sina infame.
Que divindade nos salavará? Que rainha?

MENINA
(para velha)
Isso é culpa minha?

VELHA
(em resposta)
Não.

MENINA
Mas foi eu que dei os remédios a ela.

VELHA
Ela viveu muito antes de nós, só mesmo sua cabeça pode pensar isso!

MULHER
É uma antiga história, tantas vezes vivida, tantas vezes contada. Nada a fazer.

MENINA
Vamos embora?

MULHER
Não podemos.

VELHA
(olhando para Penélope)
Ainda estão esperando.

MENINA
(para velha)
Como sabe tanto de nós?

VELHA
(mostrando o seu próprio pulso cortado)
Todas nós sabemos o que somos, mas não o que seremos. Há que se ter cuidado nessa parte, menina. A linha que nos separa é tão tênue, e há tanto entre eu e mim. Nada posso fazer além de..

MENINA
Além de?

VELHA
Além de mostrar-lhe nossas várias formas

MENINA
(descendo até Ofélia)
Quero tirar ela daqui!

VELHA
Que os deuses permitam que você consiga.

MENINA
Ajuda se eu salvar a rainha? Me ajuda?

VELHA
É o que tenho tentado fazer!

Marguerite senta-se na beirada do palco, Menina começa a rezar o Salve Rainha. Medéia se senta ao lado de Penélope.

MULHER
Onde está minha filha?

VELHA
Veja: já não sabe! Será em breve que não a reconhecerá mais entre outras tantas. Vai abandoná-la também, como sua mãe fez com você e como a mãe dela fez com ela.

MULHER
Ela já é quase uma mulher.

VELHA
É no quase que reside a tristeza.

MARGUERITE
(definhando, tossindo, num mundo paralelo)
“Cá estou de cama, o corpo coberto de emplastros que me queimam. Que se ofereça esse corpo coberto pelo qual se pagava tão caro outrora e veja o que darão agora por ele! É preciso que tenhamos feito muito mal antes de nascer, ou que gozemos de uma felicidade muito grande depois de nossa morte, para que Deus permita que esta vida tenha todas as torturas da expiação e todas as dores da provação. Oh! Nossos dias no campo, onde estão Armand? Se eu sair com vida desse aposento, será para visitar a casa em que morávamos juntos, mas só sairei morta!”

Medéia, ao mesmo tempo em que Marguerite fala, anda de um lado a outro, como um tigre enjaulado.

VELHA
Já vai mais uma à beira da morte. Esta por sacrifício! (para Mulher) Vamos embora?

MENINA
Não podemos!

VELHA
Por quê?

MULHER
Estamos esperando!

VELHA
Você não irá fazer nada?

MULHER
Não sei o que fazer!

MENINA
Me ajuda a tirar ela daqui!

PENÉLOPE
Daqui a pouco anoitecerá.

VELHA
Quanto mais retardamos a ação, mais adentramos no esquecimento.

MULHER
(para Penélope)
Aqui é a sala de espera?

PENÉLOPE
(em resposta)
Assim espero.

Marguerite tem mais um espasmo de tosse.

MENINA
Por que ninguém me ajuda?

VELHA
Está no lugar errado, menina! Não conseguirá tirar ela daí sozinha, e não desceremos aí. Mas aos poucos, todas cairemos.

MENINA
O que eu faço então?

VELHA
Veja Penélope. Tece.

MENINA
E?

VELHA
Tece, seu PARCO tecido, e logo chegará a noite. Tece nossas vidas, e a noite desfará sua trama. Mas pela manhã refará, como há séculos, as lamúrias que nos condenam.

PENÉLOPE
Eu... eu... tô pensando.

VELHA
“Pensar e não agir é ainda não pensar.”

MEDÉIA
“É absolutamente necessário que meus filhos morram.”

VELHA
Mais uma que entra no lago!

MEDÉIA
“E, por que é preciso sou eu que lhes darei a morte, como fui eu que lhes dei a vida. Vamos, arma-te, meu coração! Que esperas? Recuar diante de mais um ato terrível, mas necessário, é uma covardia. E tu, mão infeliz, toma o punhal, toma-o! Vai, Medéia, entra nesse caminho de dores que se abre à tua frente. Não enfraqueças, não te lembres de que tens filhos, que eles te são caros, que lhes deste a luz. Mas, no curto espaço ao menos deste dia, esquece-os e, em seguida, chora! Vais matá-los, e não são menos caros por isso; sou bem desgraçada!” (senta-se na beirada do palco)

MENINA
Então é assim? Morreremos todas aqui? Eu estou morta?

VELHA
Não ainda. (para Mulher) Você não fará nada?

MULHER (de dentro do seu delírio)
Minha filha não vem! Eu perdi! Perdi minha filha para sempre! (vai até a beira do placo, cruza com a Menina e se senta)

MENINA
Eu to aqui faz tempo e você não me vê, mãe!

VELHA
(Também sucumbindo)
Então foi tudo inútil. (vai até a beira do palco, se senta) Só nos resta morrer, desgraçadas.

MENINA
Não! Eu não quero morrer! (para Penélope) Vamos?

PENÉLOPE
Não podemos!

MENINA
Por quê?

PENÉLOPE
Estou esperando!

MENINA
O que? A noite? Já é noite! Anda, desfaz a trama!

PENÉLOPE
Como?

MENINA
Desfaz, vai! Para trás com esse tear!

PENÉLOPE
Já é noite?

MENINA
Que nos importa?

A Menina começa, ela mesmo, a desfazer o tecido. Como numa dança as outras mulheres, lentamente, vão saindo do estado de catatonia, levantando-se.

MENINA
(para Penélope)
Vai, continua você desfazendo!

Penélope começa a desfazer o tecido.

VELHA
(voltando completamente a ação)
Achei que novamente sucumbiríamos!

MENINA
(para Mulher)
Você, gira a roca no anti-horário. Volta o tempo!

MULHER
(reconhecendo-a)
Filha?

MENINA
Vai, mãe! Roda. Ajuda a me salvar. A salvar você!

VELHA
(para Medéia)
Este punhal não matará seus filhos. Vai para ali. (aponta para o final do pano)

MENINA
(para Marguerite)
Me ajuda a levantar ela.

Menina e Marguerite pegam Ofélia, que vai se levantando conforme Penélope vai desfazendo o tecido e a Mulher vai enrolando o fio. Elas sobem no palco. Marguerite também se levanta e sente-se bem. Penélope desfaz a última trama.

VELHA
(para Medéia)
Vai, corta o fio!

Medéia corta o fio com seu punhal. Todas congelam, estáticas

Tempo.

MULHER
Está desfeito.

VELHA
Estão retiradas as maldições sobre os ventres das mulheres.

MENINA
Que assim seja.

Longo tempo. Pela ordem de entrada, vão uma a uma se retirando, pelo fundo do palco. Forma-se novamente a figura inicial.

MULHER
Filha?

MENINA
Vamos? Podemos ir agora?

VELHA
Também eu me devo retirar.

MENINA
Pra onde você vai?

VELHA
Não sei ainda para onde. Sei por onde. (tempo) Vou por aquele portal.

MENINA
Você tem medo de morrer?

VELHA
Não mais.

MENINA
Nem eu de viver.

A Velha sorri. Beija/abraça/abençoa a menina e a Mulher. Desce do palco e sai pela platéia.

Tempo.

MENINA
Vamos?

MULHER
Podemos?

MENINA
Não há mais nada que esperar.

MULHER
Vamos.

Saem pelo fundo do palco.


FIM

primeira versão (incompleta) em março de 2006
segunda versão, ainda não finalizada, em 2 de maio de 2006
terceira versão, mais rascunhada ainda, em 4 de junho de 2006

Peça escrita dentro do projeto Escrita Aberta, da Cia. dos Dramaturgos, contemplado pela Lei de Fomento ao Teatro da Cidade de São Paulo


agradeço profundamente as sete atrizes realizaram a primeira e a segunda leitura:

Alba Brito
Claudia Schapira
Cris Rocha
Daniela Evelise
Erika Puga
Gisela Millás
Laura Fajngold