Cabeça de Papelão

ATO I

Cena 1- entrada do público

público entra com música, enquanto ator, no microfone, lê notícias do dia. B.O.

cena 2 -

cabeça dos atores aparece embaixo dos praticáveis onde o público se senta. Cantam música

ATORES


Cê-A-Bê-Ê-Cê-cedilha-A
Cê-A-Bê-Ê-Cê-cedilha-A
Cabeça feita, cabeça de alho,
Cabeça de bagre, cabeça dura,
Cabeça mole, cabeça de vento
cabeça de vidro, cabeça chata
Cê-A-Bê-Ê-Cê-cedilha-A
Cê-A-Bê-Ê-Cê-cedilha-A
Cabeça tonta, cabeça de área,
cabeça de burro, cabeça branca,
cabeça oca, cabeça de velho,
cabeça raspada, cabeça inchada.
Cê-A-Bê-Ê-Cê-cedilha-A
Cê-A-Bê-Ê-Cê-cedilha-A

B.O.
Durante o B.O., atores saem debaixo dos praticáveis e começam a andar. Transição para cidade. Usam figurinos de muitas épocas, de modo que não sabemos direito em que ano estamos, mas que estamos talvez numa rua, muito movimentada. Se trombam, se estranham.
Relojoeiro entra com uma cabeça num vidro, muito soturno e enigmático, mas facilmente confundível com os transeuntes. Não é um ser carismático nem espalhafatoso.

RELOJOEIRO

Os fatos que aqui relato se deram nesse tempo ou em qualquer tempo, nessa cidade ou em qualquer cidade, nesse país ou em qualquer outro país em que brilhe o sol, como neste chamado País do Sol. Aconteceu e acontecerá ainda, em qualquer lugar onde se estranhe o livre-pensar e onde ainda se apoiem no cordialismo familiar e no senso comum, que também é chamado de bom senso, como se "comum" fosse elogio e "senso", sentimento e não razão. Em qualquer desses conhecidos lugares há espaço para essa história, de um homem com uma cabeça magnífica que se vendeu e, se se vendeu, sempre foi e sempre será por menos do que, além do mais, valia.

Formam um grande bolo, como se fosse um ônibus cheio. Relojoeiro se junta ao bolo, some. Começam os depoimentos ao microfone.

atriz 1

Minha mãe preferia que eu fosse bancário. Mas eu queria por que queria ser escritor. Não tinha como minha mãe mudar minha idéia. Eu fiz-que-fiz-que-fiz. Mas aí abriu o concurso do banco do brasil, eu prestei só pra ela parar de falar na minha cabeça. Passei. Comecei a trabalhar lá, e até que não achei ruim. Hoje eu sou ES-CRI-turário. Até que não é tão diferente, pensa bem...

ATORES

(cantam)

eu não quero chiclete
eu não quero balinha
não quero capinha pro meu celular
nem fone de ouvido não quero comprar

atriz 2

Quando eu vou pro trabalho, eu já começo a me preparar pra não ter opinião. Não serve. Magina atender toda aquela gente e ainda ter opinião, dizer o que eu penso? Não. No começo eu até respondia, o povo perguntava: "o que vc acha?" e eu me preocupava em ser verdadeira, sabe? Ajudar o próximo. Mas não ajuda, não. Agora eu respondo: "olha, vai da cabeça de cada um".

ATORES

eu não quero casa, nem apartamento,
não quero folhinhas com propaganda,
meu carro tá limpinho, não quero sujar.

atriz 3

......Eu olhei aquilo e achei estranho; tem coisa que a gente estranha mesmo, até porque não tá costumado. Acostumado com o mundo mesmo. Eu aprendi, depois de muito bater cabeça por aí, que é mais fácil esperar mesmo e acostumar com as coisas mesmo. Então eu esperei. E agora já acostumei mesmo. Até estranho o contrário. Mesmo.

atores

eu não quero flores, nem calculadora,
não quero caju, não quero chocolate,
não quero caju, não quero conversa, não quero falar

atriz 4

Eu não gosto de trabalhar lá, e não tenho opção. Porque eu não gosto de lá, mas gosto do dinheiro que ganho lá. Então todo dia é isso, acordar, olhar no relógio e em vez de ver seis horas eu pus na cabeça que não é em tempo, que é em dinheiro que marca. Então eu vejo seis-zero-zero: 600 reais. As vezes até dólar. E vou, levanto, tomo café... Pronto, resolvido.

ATORES

não limpe meu parabrisa
odeio malabarista
e sai da minha frente
que o farol abriu.

CENA 3 - apresentação

RELOJOEIRO

(fala enquanto mãe e Antenor fazem gesto iguais, nas três apresentações, só mudando o ator que faz o antenor)


Antenor, nascido em (fala a data do dia) na capital do País do Sol

ANTENOR

Eu não entendi aonde é que está o problema: eu sou sincero com o que eu acredito, eu não prejudico ninguém.

mãe

é da tua má cabeça, meu filho

ANTENOR

Qual?

MÃE

a tua cabeça não regula

ANTENOR

quem sabe?

RELOJOEIRO

Antenor, nascido em 18 de maio de 1968, na capital do País do Sol

ANTENOR

Eu não entendi aonde é que está o problema: eu sou sincero com o que eu acredito, eu não prejudico ninguém.

mãe

é da tua má cabeça, meu filho

ANTENOR

Qual?

(mãe não fala, só faz o gesto)


quem sabe?

RELOJOEIRO

Antenor, nascido em 17 de maio de 1917, na capital do País do Sol

ANTENOR

Eu não entendi aonde é que está o problema: eu sou sincero com o que eu acredito, eu não prejudico ninguém.

(mãe não fala, só faz o gesto)

Qual?

(mãe não fala, só faz o gesto)


quem sabe?

CENA 4 - Mãe

Mãe vai abrindo uma mala, com as outras atrizes que cantam. Vai tirando roupinhas de criança da mala e pendurando num varal.

atrizes

(cantam)

Vai meu filho vai,
vai ser bacharel,
vai meu filho vai,
vai ser coronel,

vai meu doce vai,
mostre o seu anel,
vai meu anjo vai,
esse é o seu papel.

MÃE

Antes de nascer meu filho eu tive um sonho
Onde anjos decaídos me diziam
Que me davam seu peso em ouro
Para ter a bela cabeça que o meu filho trazia
Eu, no meu sonho toda torta
Eu não entendi o que eles queriam
E perguntei se era sorte ou vitupério
O que aqueles seres noturnos previam
Se ele seria algo na vida,
se faria fortuna ou fama merecida
Se seria ministro ou presidente
Ou se seria coxo na vida
Mas os anjos como foram, vieram
Me deixando toda pensativa
E agora que você nasceu eu quero
Que siga sua sina, sua lida:
Como seu pai, seu avô, seu tio,
Vai filho, ser bacharel nessa vida!

ATRIZES

(cantam novamente)


ato ii - Tramites legais de um jovem solar

CENA 1 - Festa em família

(Prima, Mãe e Vizinha estão na sala discutindo a vida alheia)

Vizinha

Porque se você não interferir agora, daqui a pouco ele tá vendendo coco na beira da estrada porque "todo trabalho enobrece"!

Mãe

Acha?

Prima

Ou pior, vai ser músico!

Mãe

Não, músico, não!

Prima

Você falou com o seu tio?

Vizinha

Ah, se eu tivesse um parente desses!

(Tio chega com tia empurrando a cadeira de rodas, em grande festividade. Música do Chacrinha, etc.)

Tio

(parando a música como Jo)

Eu fui convocado e vim dar o meu recado. Do que se trata?

Mãe

o Antenor, ele

(não sabe como falar)

Prima

Não o poupe!

Vizinha

Desembucha!

Mãe

Ele quer...

Prima

Fala!

Vizinha

Coragem!

Tio

Ele?

Mãe

Quer ser trabalhador!

(Tempo. Tio estarrecido. Todos se olham. Grande gargalhada. Entra Antenor, lendo um livro, sem perceber o que está acontecendo. Tromba em alguém. )

Tio

(como se anunciasse uma atração de circo)

An-te-nor! Olha só, que boa hora! Estávamos falando sobre você exatamente!

ANTENOR

(com os olhos no livro)

De verdade?

Mãe

(comentando com prima e vizinha)

Ele é bom! Não faz por mal.

Tio

Falávamos em seu futuro. Sua ascensão: será bacharel. Bacharel é bonito, bacharel tem anel! Depois deputado. Ao lado de um político chefe, sabendo lisongear...

Tia

pode ser até ministro!

ANTENOR

(fechando o livro)

Mas não quero ser nada disso!

Tia

Então quer ser vagabundo?

Antenor

Não, eu estudei... Agora quero trabalhar.

Tio

Antenor. Vc me não tem pudor? Sua está em dor, sua vó tem um tumor,sua vida é um horror, vc me dá pavor, sua cabeça é um bolor, alguém me traz um lisador? Vagabundo é um sujeito a quem falta: dinheiro, prestígio e posição. Se você não tem, é vagabundo!

Antenor

Eu discordo.

Prima

é músico!

Vizinha

é pior. Não tem bom senso.

Mãe

Mas meu filho, trabalhar para os outros é uam ilusão. Nós não sabemos trabalhar!

Prima

Doido furioso!

Tia

é bolchevique!

MÃE

Mas então, filho... Presta um concurso público! Aí não precisa trabalhar!

Vizinha

Quem trabalha não tem tempo pra ganhar dinheiro!

Tio

(cortando as outras falas como o Jo, novamente)

Atenção!

(tentando hipnotizá-lo)

Preste atenção... Repita comigo: a faca corta e a chave abre porta

Todos os outros hipnotizados começam a rodar em volta de Antenor repetindo o bordão do tio. Antenor, que fica sem entender e não é hipnotizado, abre o livro, começa a ler e sair de cena. Todos saem num crescente do bordão e é bacharel, oba!

Atores

(cantam)

A chave abre portas/e a faca serve pra cortar/ O que é nosso pra nós/ e o que é dos outros também pra nós

CENA 2 - TRABALHO

Antenor com capacete de construção junto com dois outros funcionários.

Seu praxedes

Bom, o serviço é simples. Basta pintar essa parede. Aqui está o material.

pintor 1

Tá fácil fácil

(começa a pintar muito lentamente. O outro só olha)

antenor

(para pintor que olha)

E você, não pinta?

pintor 2

Veja bem, primeiro é a brocha, depois eu entro com o pincel

(ri muito da própria piada. Antenor não ri. Pega o rolo, enfia num cabo de vassoura e começa a pintar nitidamente mais rápido que os outros. Termina e chama o patrão)

SEU PRAXEDES

Mas que maravilha! Como é rápido. Se continuar assim, daqui a pouco te promovo.

(para os outros dois)

Isso é que é trabalhador exemplar.

(sai. os dois olham com muita raiva pra Antenor, vão pra cima dele, tiram o material de trabalho e o capacete)

PINTOR 1

O que você tá pensando, hein?

PINTOR 2

Acha que é só chegar aqui e abafar?

PINTOR 1

Nós temos anos de prática aqui

PINTOR 2

Não é qualquer um que vai chegar aqui e me passar pra trás

ANTENOR

Mas eu só fiz a minha parte

PINTOR 2

Não interessa. Tá pensando?

PINTOR 1

Aqui a gente respeita os mais velhos

PINTOR 2

Tem uma ordem, entendeu?

PINTOR 1

Dá área.

ANTENOR

O que?

PINTOR 2

Você ouviu. Vasa daqui e nunca mais aparece.

(Antenor sai correndo de medo)

Antenor senta-se num dos bancos de telemarketing junto com as outras meninas. Coloca fone com microfone

SEU PRAXEDES

Hoje a meta é não dar nenhuma solicitação de urgência, ok? Apenas se falar a palavra

atendente 2

Procom!

SEU PRAXEDES

Nem me fala que pode dar azar, minha filha. Tá entendido? Eu vou repetir que é pra ficar bem claro: Prazo pra sair o dinheiro é três meses. Solicitação com urgência, prazo de 3 dias, mas só se falar...

ATENDENTE 2

Procom!

SEU PRAXEDES

Pelamordedeus, já disse pra não falar essa palavra!


(começa um diálogo quase em cima do outro.)

ATENDENTE 1

Seguradora Sua Vida é Nossa, boa tarde, em que posso estar ajudando?

D.Noca

Oi, boa tarde. Meu marido acaba de ter um infarto. Eu trouxe ele pro hospital, mas...

atendente 2

Seguradora Sua Vida é Nossa, boa tarde, em que posso estar ajudando?

seu mirto

Oi, é da autorizada? Meu carro quebrô, meu filho.

ATENDENTE 1

Senhora, a senhora deve estar enviando o formulário via fax e a resposta estará sendo analisada...

atendente 2

Meu senhor, qual o número do renavam?

SEU MIRTO

De quem?

D.NOCA

Eu não quero protocolo não, minha filha. Eu não tenho nada, só tenho esse seguro.

ANTENOR

Seguradora sua vida é nossa, boa tarde, em que posso ser útil?

D. Lucélia

Oi meu filho, Deus te abençoe que eu achei que não iam mais atender.

ANTENOR

Amém.

(Seu Praxedes começa a ouvir a conversa encafifado)

ATENDENTE 1

A liberação de dinheiro estará sendo feita através de formulário via fax.

D. LUCÉLIA

Eu preciso fazer uma biópsia, meu filho. É uma solicitação de urgência.

(mini tempo. Seu Praxedes olha atento)

ANTENOR

Senhora, as solicitações devem ser feitas por fax e tem o prazo mínimo de três meses.

ATENDENTE 2

O renavam, senhor?

D. LUCÉLIA

Três meses?

D. NOCA

Meu marido tá aqui, e vai morrer se não liberar o dinheiro pra internação.

atendente 1

O prazo mínimo é de três meses. Mais alguma coisa?

d.Noca

Mas minha filha...

D. LUCÉLIA

Eu não posso esperar tudo isso. Até lá eu já morri.

SEU MIRTO

Achei meu filho, o renavam é 3849598...

antenor

(disfarçando em espirro)

fala procom

D. LUCÉLIA

saúde!

ATENDENTE 1

Senhora, não posso estar fazendo mais nada é procedimento padrão. Mais alguma coisa?

ANTENOR

(ainda tentando disfarçar, mas mais claro)

Quer que eu compre? eu compro! comprocomprocomprocomprocomprocom!

(seu Praxedes começa a se aproximar)

seu mirto

Olá, anotou o renavam?

ATENDENTE 1

Anote o protocolo por favor. 29839040

(para de falar os números qdo percebe o que o Antenor está fazendo)

d.lucélia

Comprocom?

ANTENOR

Procom? Não, não precisa senhora, estarei providenciando a solicitação de emergência em três dias...

D. NOCA

Alô?

(som de ligação caída)

SEU MIRTO

Alô?

(som de ligação caída)

D.LUCÉLIA

Deus te abençoe, meu filho.

(Seu Praxedes vai até Antenor)

ANTENOR

É um prazer, mais alguma coisa?

SEU PRAXEDES

(puxando Antenor pelo colarinho)

Só mais uma coisa: vc tá despedido!

Antenor dobra roupas. Uma cliente sai do provador, está com uma roupa que, visivelmente, não combina. Seu Praxedes olha Antenor.

ClIente

Gente, adorei. Vou levar, o que você acha?

ANTENOR

Desculpa a franqueza, mas eu acho que te engorda.

CLIENTE

Engorda como?

ANTENOR

Aparece esse pneuzinho aqui, ó. Tá esquisito.

CLIENTE

(decepcionada, mas confiando em Antenor)

Então me mostra outra coisa, aí, que não engorde.

ANTENOR

Olha, pra ser sincero, aqui não vai ter nada pra você. A modelagem da loja é pequena.

cliente

Ah...

(Seu Praxedes começa a se aproximar)

antenor

Mas olha, quer ver? Sabe a loja ali da esquina? Eu passei lá e tem uns modelitos ótimos, que aí sim vão cair bem na senhora. Passa lá. Tá até em promoção essa semana.

Cliente

Ai, anjo. Obrigada.

(sai. Cruza com Seu Praxedes)

O seu vendedor é bárbaro.

SEU PRAXEDES

Ô bárbaro... Dá o fora daqui!

(joga nos braços da mãe)

Seu filho não tem a cabeça certa!

MÃE

Prejudicou-lhe, Seu Praxedes?

transição de cena. troca de Antenor

RELOJOEIRO

Antenor: nascido em 18 de maio de 1968, na capital do País do Sol.

(troca o ator que faz o Antenor)

mãe

É da tua má cabeça, meu filho

ANTENOR

Qual?

MÃE

Quem regula tua cabeça?

ANTENOR

quem sabe?


CENA 3 - FICA COMIGO ESSA NOITE

Mãe arruma Antenor. Entra Eulália, a costureira.

EULÁLIA

Com licença, querida!

MÃE

Oi, Dona Eulália, entra!

EULÁLIA

(para sua filha Maria, que está muito tímida)

Fica quietinha.

(para Mãe)

Tudo bom?

MÃE

Trouxe meu vestido?

EULÁLIA

Trouxe! A Maria veio junto porque ela está de férias.

MÃE

sua filha?

EULÁLIA

É. Ela fica quietinha e não mexe em nada.

MÃE

(com um certo desprezo)

Ah, que bonitinha.

(indo para o lado de Antenor, falando para Eulália)

Esse é o Antenor, lembra dele?

(para Eulália)

Vamos lá provar?

(para Antenor)

Faz sala pra menina.

(as duas saem. Antenor e Maria ficam se olhando.)

ANTENOR

(completamente sem graça, não sabe o que dizer)

É... quer sentar?

(sentam-se. tempo, sem graça)

Quer alguma coisa pra beber?

maria

Não, obrigada.

(tempo)

Posso ouvir uma música?

ANTENOR

Claro!

(Maria começa amexer no rádio ao lado, sintonizando uma estação. Começa a tocar Fio de Cabelo)

Eu adoro essa música.

mudança de clima, transição. dança imaginária das roupas dos dois se entrelaçando. Roupas voltam apra eles, volta Fio de Cabelo, eles continuam se olhando. Mãe e Eulália voltam)

EULÁLIA

Então eu trago o outro no sábado, tá?

MÃE

Claro! Eu vou mandar o cheque.

EULÁLIA

Então até!

(para Antenor com certo desprezo)

Tchau Antenor.

(para Maria, que não tirou os olhos de Antenor)

Vamos, menina.

MÃE

(para Eulália)

Tchau!

(para menina)

Tchau, bonitinha!

(para Antenor, que acompanha a saída de Maria com o olhar)

Pra filha de costureira até que ela é bonitinha, né?

A cena se desfaz. Começa música Fica Comigo Esta Noite. Todos cantam e dançam. Antenor e Maria dançam uma dança imaginária.

Fica comigo esta noite
E não te arrependerás.
Lá fora o frio é um açoite;
Calor aqui tu terás.


Terás meus beijos de amor,
Minhas carícias terás;
Fica comigo esta noite
E não te arrependerás.

Quero em teus braços, querida,
Adormecer e sonhar;
Esquecer que nos deixamos
Sem nos querermos deixar...

Tu ouvirás o que eu digo;
Eu ouvirei o que dizes.
Fica comigo esta noite
E então seremos felizes.

Ao fim, se separam de um lado Maria e coro de atrizes, do outro Antenor. Os atores e atrizes comentam, moderadamente o diálogo a seguir.

maria

Só caso se vc tomar juízo.

ANTENOR

E o que é juízo pra senhora?

MARIA

ser como os outros

ANTENOR

Você gosta de mim?

maria

Por isso só caso depois.


CENA 4 - RELOJEIRO

pessoas andando, transeuntes, transição. Antenor no meio delas.

Antenor

(pensativo, fala as vezes com o público, as vezes com algum transeunte. Preparação pra cena a seguir, vai ficando tudo meio estranho)

Arrumar minha cabeça... As pessoas me falando isso... O que é arrumar minha cabeça? Alguém aqui pode me ajudar?

(pra platéia ou pra um transeunte)

você pode arrumar minha cabeça? Pois disseram que tá desacertada!

(pra outro, pedindo pra que pegue a cabeça)

O que será de errado? É por fora ou por dentro? É o penteado será?

ATOR

Troca, ué!

Antenor

O penteado?

Todos

A cabeça!

(Começam a passar pessoas sem cabeça. Antenor bate a cabeça numa porta. A porta se abre, ele atravessa.)

ANTENOR

Oi com licença, eu entrei por aqui e...

Coreanas

(começam a falar numa confusão, bão girando ele, que fica confuso.)

Claro, temos todo tipo de pilhas, A, AA, AAA, AAAA. Deseza lelózio? deseza ládio-lelózio? deseza aipodi? deseza celula com tlês chips? deseza tecnolozia?

Antenor

Vocês estão confundindo minha cabeça!

(coreanas abrem o coro, onde do centro a aparece,  o Relojoeiro - é um ser lúgubre, soturno, quase um atendente de biblioteca. talvez qaundo canta, surpreendentemente pareça desenvolto, mas retorna a sua posição subalterna nas falas)

coreanas

(cantando)

Tô bem de baixo prá poder subir
Tô bem de cima prá poder cair

relojoeiro

Tô dividindo

coreanas

prá poder sobrar

relojoeiro

Deperdiçando

coreanas

prá poder faltar

Todos

Devagarinho prá poder caber
Bem de leve prá não perdoar
Tô estudando prá saber ignorar
Comendo gente fina para vomitar

Relojoeiro

Olá. O senhor traz algum relógio?

ANTENOR

Quem é você? Da onde vocês surgiu? Eu tava só passando por aqui e...

RELOJOEIRO

(cantado, ritmado, ainda expansivo)

Eu sou
do tempo a curva inexata
fenda feita com uma enxada
na sua razão tão bitolada.
Mágico!
eu sou uma aparição
uma sombra-assombração
um fantasma-aberração
um ilusionista-ilusão
produto da imaginação!

Antenor

Não, mas perai, seu homem-aparição-do buraco sei-lá-o-que, o senhor surge do nada, vem assim todo cantandinho...

RELOJOEIRO

(volta a música)

Suavemente prá poder rasgar
Olho fechado prá te ver melhor
Com alegria prá poder chorar
Desesperado prá ter paciência
Carinhoso prá poder ferir
Lentamente prá não atrasar
Atrás da vida prá poder morrer
Eu tô me despedindo prá poder voltar

Eu tô te explicando
Prá te confundir
Eu tô te confundindo
Prá te esclarecer
Tô iluminado
Prá poder cegar
Tô ficando cego
Prá poder guiar

ANTENOR

Para com isso! Eu não quero musica não! Eu quero uma solução! Eu quero arrumar minha cabeça!

(Relojoeiro volta a sua posição subalterna e soturna)

RELOJOEIRO

Está desarranjada?

ANTENOR

É o que dizem.

RELOJOEIRO

Desde quando?

ANTENOR

Desde que nasci.

RELOJOEIRO

Qual a marca?

ANTENOR

Marca?

RELOJOEIRO

Sim, marca de fabricação. Quem fez?

ANTENOR

Eu não sei qual é a marca não. Foi minha mãe quem fez.

relojoeiro

Bom, nesse caso, pode solicitar orçamento. Talvez imprecisão na montagem das peças. Não sei se vale a pena consertar, as vezes fica até mais caro que comprar outra nova. Mas não posso lhe adiantar nada sem a desmontagem completa e a observação de trinta dias. As cabeças, como os relógios...

ANTENOR

O senhor fica com a minha cabeça?

RELOJOEIRO

Claro. Como pretende que eu conserte?

ANTENOR

Mas o diabo é que eu não posso andar por aí sem cabeça.

RELOJOEIRO

Enquanto conserto, posso te emprestar outra. De papelão.

ANTENOR

E funciona bem?

RELOJOEIRO

Bem... é de papelão!


Cena da troca de cabeças.



ANTENOR

(acendendo um charuto)

E quanto eu lhe devo, meu amigo?

RELOJOEIRO

O orçamento é sem compromisso.

ANTENOR

Melhor assim.

RELOJOEIRO

E pelo aluguel da cabeça... paga na devolução.

ANTENOR

Dinheiro não é problema para mim.

RELOJOEIRO

É só assinar o contrato, então.

ANTENOR

(procura nos bolsos)

Me empresta uma caneta?

(Relojoeiro joga a caneta)

Ai! Furou meu dedo. Ih, sujou o contrato. Não tem problema, não é?

(assina. relojoeiro apenas olha, triangula com a platéia)


Transição de cena. Mudança de ator que faz Antenor. Talvez possamos juntar essa mudança com a troca de cabeças.

RELOJOEIRO

Antenor, nascido em (fala a data do dia), na capital do País do Sol.

transição. frases soltas da mãe, do tio... enquanto isso  monta-se a cena do rádio

ato iii

CENA 1 - ESTAÇÃO DE RÁDIO

em vários planos: estação de rádio, casa de Marieta e casa de Maria, onde ela e Dona Eulália costuram um vestido de noiva. Maria liga o rádio e a cena começa.

Locutor

Nossa Rádio Solar tem a honra e o prazer de apresentar a segunda edição de

Meninas

O Solteiro Cobiçado

Locutor

E nesta segunda edição suas chances de felicidade e sucesso aumentaram. Pois logo revelaremos quem é nosso campeão cobiçado do ano! Ele já está aqui, senhoras, ele logo falará as ouvintes.


(música)

Quando a gente ama
Qualquer coisa serve para relembrar
Um vestido velho da mulher amada
Tem muito valor
Aquele restinho do perfume dela que ficou no frasco
Sobre a penteadeira
Mostrando que o quarto
Já foi o cenário de um grande amor

LOCUTOR

E quem quiser entrar de última hora na nossa competição para quem levará o solteiro basta ligar para nossa rádio e dar um palpite de quem é. E a primeira dica é a música preferida do nosso solteiro!


(música)

E hoje o que encontrei me deixou mais triste
Um pedacinho dela que existe
Um fio de cabelo no meu paletó
Lembrei de tudo entre nós
Do amor vivido
Aquele fio de cabelo comprido
Já esteve grudado em nosso suor

(na casa de Maria Antônia, ela e a D. Eulália)

D. EULÁLIA

Essa era a música preferida do Antenor, não era?

Maria Antônia

Era...

Locutor

(pelo rádio)

Já temos uma ligação na linha. da Marieta. Alou, Marieta?

Marieta

(noutra parte da cena)

Hello!

Locutor

Alou! Quer uma dica ou já quer dar seu palpite?

Marieta

Eu sei quem é! É o Antônio José!

Locutor

Não Marieta! Não é! Pena, continue tentando! Como ninguém sai daqui de mãos abanando, vc vai ganhar um adesivo de familinha!

MARIETA

Mas eu não tenho família!

(cai a ligação. Tu tu tu)

LOCUTOR

Mas já estamos com o nosso solteiro cobiçado aqui. E vejam só, ele chegou de BMW importada e blindada! Isso é que é solteiro de valor!

D. EULÁLIA

(noutro plano)

E ele ligou?

Maria Antônia

Quem?

D. Eulália

Como quem? O Antenor!

Maria Antônia

Não.

(volta a música)

Quando a gente ama
E não vive junto da mulher amada
Uma coisa à toa
É um bom motivo pra gente chorar
Apagam-se as luzes ao chegar a hora
De ir para a cama
A gente começa a esperar por quem ama
Na impressão que ela venha se deitar

Locutor

(de volta a rádio)

Ainda não descobriu quem é? Vamos dar mais uma dica! Ele é popular, tem diversos amigos! Vamos ouvir um dos amigos dele. É gente importante, atenção! O próprio Ministro da Fazenda!

Ministro

Esse menino é de ouro. Não sei como não notamos antes. Mas é que ele, mesmo sendo de boa família, imagina só, sempre acreditou no trabalho. Passou anos tentando adaptar seu gênio ao povo, conhece o povo por dentro. Mas mais cedo ou mais tarde o povo ia perceber seu talento. É um líder nato!

Locutor

Já sabe quem é?

D. EULÁLIA

Imagina se fosse ele?

Maria Antônia

Quem, mãe?

D. EULÁLIA

Menina! Como quem? O Antenor!

MARIA ANTÔNIA

Ai mãe, que bobagem. Ele não é disso. Uma bobagem dessas.

Locutor

E agora um momento quentinho, um momento amor. A pessoa que vai falar agora conhece intimamente nosso solteiro cobiçado!

MÃE

Eu não sei. Ele sempre foi um menino bom. Tinha suas manias quando era criança. Um pouco rebelde, mas eu sabia que tinha jeito. Quando resolveu tomar jeito todo mundo percebeu. Arrumou a cabeça.

D. Eulália

É a voz da mãe dele!

Maria Antônia

Dele quem, mãe?

D. EULÁLIA

Não é possível. Vc tá dormindo? Do Antenor, criatura! Liga lá.

Locutor

Agora a próxima ouvinte vai ter o prazer de falar com ele! Quem ligar agora tem direito a uma pergunta Alou? Quem é?

Maria Antônia

Maria Antônia.

Locutor

Pois bem, Maria Antônia, que sorte, hein? Pode fazer sua pergunta.

Maria Antônia

Agora que você ajeitou sua cabeça, eu caso com vc.

Antenor

Oi, pois não, qual sua pergunta?

Maria Antônia

Eu sei que é vc, Antenor. Não precisa disso, eu caso com vc.

Locutor

(tentando tomar o controle, para a música)

Opa opa opa! Parece que a ouvinte se precipitou!

Antenor

(cortando)

Quem tá falando?

Maria Antônia

Sou eu. A Maria Antônia.

(canta)

Fica comigo essa noite, e não te arrependerás. Lá fora o frio é um açoite, calor aqui tu terás.

(Tensão. Todos olham a reação de Antenor)

ANTENOR

Desculpa, eu não sei quem é você. A gente se conhece?


(volta música)

E hoje o que encontrei me deixou mais triste
Um pedacinho dela que existe
Um fio de cabelo no meu paletó
Lembrei de tudo entre nós
Do amor vivido
Aquele fio de cabelo comprido
Já esteve grudado em nosso suor

CENA 2 - ASCENSÃO

transição, tio se aproxima

TIO

A chave

ANTENOR

abre portas, a faca serve pra cortar.

TIO

O que é nosso

ANTENOR

Pra nós e o que é dos outros, também pra nós.


(música. Antenor começa sua ascensão, diplomas, charutos, mulheres a falas podem ser em cima da música mesmo e podemos alterar a ordem em cima da partitura que jé temos)


Eu te dei meu amor
Por um dia
E depois sem querer te perdi
Não pensei que o amor existia
E também choraria por ti


MÃE

É da tua má cabeça, meu filho.

ANTENOR

Era!

(D. Eulália e Maria se aproximam)

MÃE

Você se lembra da Maria, Antenor?

ANTENOR

A filha da costureira?


(música.)

(volta música)

Mas tudo passa tudo passará
E nada fica nada ficará
Só se encontra a felicidade
Quando se entrega o coração


(Seu Praxedes se aproxima)

SEU PRAXEDES

De quem foi essa idéia do cabo de vassoura?

ANTENOR

Minha! Quer comprar?

(ao telefone)

Compro compro compro! Procom? Compra eles!


(volta música)

Voltarei a querer algum dia
Hoje eu sei que não vou mais chorar
Se em mim já não há alegria
A esperança me ensina a gritar

Mas tudo passa tudo passará
E nada fica nada ficará
Só se encontra a felicidade
Quando se entrega o coração

(monta-se a foto de família quando acaba a música)

CENA 3 - PAPELÃO

Foto da família. Relojoeiro se aproxima, com uma caixa de papelão na mão.

ANTENOR

Olhem só! Quem está aqui.

MÃE

Quem é esse, meu filho?

ANTENOR

Esse, mamãe, é o homem que consertou minha cabeça.

TIO

(não conseguindo segurar o riso)

Essezinho?

RELOJOEIRO

Não, eu não consertei sua cabeça.

ANTENOR

Sem falsa modéstia, seu...

(sem lembrar)

como é mesmo seu nome?

(ele não repsonde)

Ah é...

(cantandinho)

To confundindo pra te distrair... Como era?

(ri muito, se diverte)

RELOJOEIRO

Perdão, senhor. Eu o procurei muito tempo. Hoje eu vi sua foto no jornal e

(mãe e mulher pegam jornal das mãos do relojeiro e observam com orgulho)

Vim devolver-lhe isso.

(entrega a caixa a Antenor. todos se amontoam em volta para ver. ele abre a caixa e olha dentro. Diversas reações: nojo, espanto...)

ANTENOR

Vocês podem me deixar sozinho um instante? Eu preciso conversar com o senhor aqui.

(todos saem, menos mãe)

Você também, mamãe. É assunto pessoal.

MÃE

(quase entendendo a situação)

Meu filho... usa a cabeça. Você era bom. Não fazia por mal.

ANTENOR

Obrigada, mamãe. Agora vai

(depois que ela sai, para Relojoeiro)

E então. A cabeça. Não tinha conserto mesmo?

RELOJOEIRO

Tem se dado bem com a de papelão, pelo visto.

ANTENOR

Tinha ou não tinha conserto?

RELOJOEIRO

Não tinha.

(Antenor se alivia. ele continua, no entanto)

Não tinha conserto porque não tinha defeito. Na minha longa vida profissional jamais encontrei um aparelho igual: perfeição, acabamento, precisão. Não há cabeça melhor do que essa. É a placa sensível do tempo, das idéias, é o equilíbrio de todas as vibrações. O senhor não tem uma cabeça qualquer. Tem uma cabeça de exposição, uma cabeça de gênio, hors-concours. É a antena da raça, Antenor.

ANTENOR

Fico feliz em saber. Quanto eu devo ao senhor?

RELOJOEIRO

Nada. Só vai me devolver a de papelão.

(Antenor coloca a mão na cabeça e faz menção de tirá-la. tudo treme cenário, etc..., algo lhe impede o gesto)

ANTENOR

Eu gostaria de ficar com ela.

(disfarçando)

Como recordação, claro.

RELOJOEIRO

Sim, entendo. Quer que eu ajude a retirá-la?

ANTENOR

Quanto eu devo?

RELOJOEIRO

Nada senhor. Mas o senhor assinou um contrato e...

ANTENOR

Me dê. Eu pago. Eu pago a diferença.

relojoeiro

Nessa caso

(o contrato aparece no telão)

Sua alma, sua palma.

(a um sinal seu, some com o contrato)

Está aqui sua cabeça. A cada um sua sentença.


CENA 4 - JUÍZO FINAL

O Sol há de brilhar mais uma vez
A luz há de chegar aos corações
Do mal será queimada a semente
O amor será eterno novamente

RELOJOEIRO

E nessa terra onde o sol brilhava sempre, que viveu Antenor. Um homem que nasceu predestinado e no seu destino optou. Optou pela cordialidade... Optou em ser não ele, e aos outros agradar.  Quem de nós pode julgá-lo? Quem de nós pode condená-lo? E quem virá para defendê-lo?
E assim, senhores aconteceu, o que eu acabo de contar. Se gostaram muito bem... Se não gostaram azar! A chave abre porta, a faca serve pra cortar. Eu sirvo pra confundir, eu vivo pra enganar. Eu entro por uma porta, e vou sair em outro lugar!

(some. música continua)


É o juízo final
A história do bem e do mal
Quero ter olhos pra ver
A maldade desaparecer
O Sol há de brilhar mais uma vez
A luz há de chegar aos corações
Do mal será queimada a semente
O amor será eterno novamente

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