I.
Essa é a poesia que eu fiz pra te esquecer.
Nela eu deixo: ponte, estrela, luar e as memórias que eu fabriquei pra quando formos velhinhos eu compartilhar com você.
Eu deixo nela: guarda chuva, bicicleta, flor. Barulho de chuva no rio. Deixo uma risada de lado que você deu no primeiro dia que eu vi você.
Deixo aqui ainda: muro, lixo e medo e os todos os meus defeitos, que apesar de eu tentar esconder, você logo descobriu; e hoje eu penso, se esse não foi o porquê você não me quis, e resolveu me esquecer.
E por mais que pareça estranho, eu deixarei aqui todas as minhas roupas que me lembram você - e até aquelas que me lembram eu porque eu tenho que deixar aqui um pedaço de mim, e até EU me lembra você.
Eu deixo aqui, nessa poesia que eu fiz pra te esquecer outras coisas que os outros não poderão ver: o gosto da sua boca, sua nuca, seu colo, suas mãos e as minhas mãos em você.
Eu deixo aqui também umas coisas suas: o seu jeito de olhar primeiro pra baixo antes de me olhar nos olhos. E meus olhos nos seus olhos e o vento que sobe no peito quando a gente se vê.
E pra conseguir fazer isso, essa é a poesia  que eu fiz pra te esquecer.


II.
No dia em que eu te esquecer não fará sol. Mas eu vou perceber que algo novo, algo leve, me aconteceu ou está pra acontecer.
No dia em que eu te esquecer, eu vou tomar muito café. Por que vou poder tomar café sem pensar, que café me lembra você. E vou poder comer bala, sem nunca pensar naquele dia anos atrás, que bala começou a me lembrar você.
E só no dia que eu te esquecer eu vou poder estudar mitologia. Por que eu nunca fui a Psiquê, e você não é Eros e por isso que te amei tanto: eu sempre fui só eu mesmo, e você foi sempre você.
E nesse dia sem sol, sem chuva, depois que anoitecer, eu vou ficar horas olhando pra lua, porque ela não me lembra mais você.
E o sol batendo oblíquo no quadro do klimt, e o por do sol por entre os prédios, os astros todos, até o universo eu vou poder rever, porque não vão ser só um pretexto pra pensar em você, no dia em que eu te esquecer.
E se eu tenho que escolher um dia, que seja hoje. Por que quanto mais tempo eu demorar, mais eu vou amar você. E pra conseguir fazer isso, essa é a poesia que eu fiz pra te esquecer.


Saudade é quando seu coração te avisa que tem algo que deveria estar ali e, por algum motivo, não está.
Foi ela mesmo que me contou
Essa história
E me lembro que à época
Que me pareceu  bonita.
Eu tinha 2 anos e era bailarina.

Agora posso reconta-la,
mas aviso:
A morte invadiu a minha poética
Quando começou a rondar nossas vidas
E deixará marcas profundas.
A marca própria dos mistérios
Por isso construirei poemas fúnebres.

Eu não queria olhar mais aquele cadáver que respirava.
Respirava cadavérica
Com a maldição lhe comendo a voz.

(esse é um canto de morte e dor,
não prossiga
não termina bem
com metáforas suaves
termina triste
e feio como um tumor)

Um caranguejo comeu minha tia.
Comeu-a aos poucos
Nos deu tempo de olhá-lo bem
Deu tempo a ela de olhar bem pra sua face roxa.
Comeu primeiro a alegria
depois a voz
depois a ironia.

Agora
ela era a bela adormecida.
Dormia
E tínhamos que vigiá-la
velá-la, eu diria.
(eu havia de zelar por ela
eu me des-espero pois não sei fazê-lo)

Era a feia-adormecida
A bela já havia partido.
E deixava-nos partidos
Segmentados
sem a sua cola sarcástica
Sem seu amor desmedido.
Era um pouco de nós que morria.

agora só nos restava
que um príncipe-morte
viesse
para dar o beijo final
e a libertasse
e sabíamos que só sepultaríamos
o feio caranguejo.
um arremedo da beleza
feio como qualquer arremedo.

Minha tia-bela-adormecida
Vai olhar pra face do príncipe-morte com amor
Como nos olhava por trás dos dois óculos
E eu tinha certeza que no dia seguinte após o almoço
Eu poderia tomar café em sua casa
E ela diria:
“Você viu que besta esse caranguejo? Um lance, achou que me comeria”
E eu contaria piadas e segredos
Que ela guardaria.

Mas esse caranguejo besta
Bobo e rancoroso
Comeu a voz da minha tia
E eu sou criança demais
Pra entender
Que ela não voltaria.

Eu tenho medo dele
Do príncipe-caranguejo que a beijará
Como aquela bailarina que eu fui também tinha.
Mas não sabia.

Minha mãe fia e confia
Com o silêncio de uma rainha-mãe
Ela é uma criança como eu
Ela é forte como eu
E nossas almas estão em andrajos.

(Nem a esperança do outro lado me acalma
Eu só queria, egoísta
Que o futuro não tivesse chegado a galope
e que caranguejos não cavalgassem)

E tomaríamos
Mais quinze mil cafés
Ao som das risadas
Dois óculos
“Um lance”
E fado.    
III.
A mulher que caminhava está seca
O deserto a inundou.
Eu permanecia na praia.
a areia densa nos separava.

Ela abriu os olhos
e eram dois olhos de pupilas brancas

descrevê-la é prever um deserto
suas mãos com sulcos secos
como galhos invertidos
suas têmporas riscadas
como dois figos abertos
e seus malditos olhos brancos
ausentes de alma
não andava
nem sulcava a areia
quase como que flutuava
uma lagarta centopeica
uma gosma cósmica
verde-reluzente.
quase puta, quase louca
rota
a morte a solta.
fria, seca, magnética.

eu a olhava com meus olhos de água
ou de anis estrelado
duas órbitas, duas luas
límpidas e nuas.

entender-me é antever um mar
minhas longas saias de ondas
ausência de pés
longas nadadeiras
brânquias por pulmões
não nadava
quase que flutuava sobre as águas
de messiânicas paragens.
Quase santa, mas nem tanto.

duas potestades
duas fundações
nascimento e morte
sem função ou ministério
vagando apenas
em seus profundos mistérios