me movo
na fenda da solidão inperscrutável
bailarina dionisíaca
extasiada de mim
(ouvindo músicas bobas que lembram nenhuma presença)
entre as beiradas
sapatilha a mão
e o tal tal tempo
a girar lento
na outra
se estivesses aqui, senhor
ah, se já tivesses retornado!
nesse gira-gira eterno
nesse aqui cadafalso
se já tivesses rompido
sob o signo de fogo
da minha penelopica espera
(onde estás que nunca ouve meus clamores?)
se já tivesses aceito
o desafio de me viver
se já tivesses
ah!
romperia pela casa no barulho celeste da sua presença
eu, em júbilo
bailarina extasiante
dioníso
sapatilhas a mão
e o tal tal tempo
girando lento.
eu queria te dizer isso
aqui
o mais perto possível de deus,
ao pé do teu ouvido,
à sombra das galáxias cintilantes
talvez eu te diga isso
e
talvez seja estranho
e
talvez você se espante
aqui
quase longe
à sombra das galáxias cintilantes
é assim (e que assim seja)
doravante
de hoje em diante
não há mais dor nem mal nem medo
e
nem desejo
aqui distante
ao pé do teu ouvido
à sombra das galáxias cintilantes.
aqui
o mais perto possível de deus,
ao pé do teu ouvido,
à sombra das galáxias cintilantes
talvez eu te diga isso
e
talvez seja estranho
e
talvez você se espante
aqui
quase longe
à sombra das galáxias cintilantes
é assim (e que assim seja)
doravante
de hoje em diante
não há mais dor nem mal nem medo
e
nem desejo
aqui distante
ao pé do teu ouvido
à sombra das galáxias cintilantes.
De volta ao cotidiano, ela olhava pela janela do avião avistando a grande metrópole a frente, abaixo, pelos lados. A direita o pôr do sol galáctico, de milênios de um planeta às vésperas de uma nova era. Em frente, a frente, do lado, ao lado, por fora, ao redor: a cidade iluminada, no longe-perto da escuridão da noite decantada.
O mundo ainda roda-vibrava e balançava no coração acostumado ao rio, como se fosse o rio o mundo, o escuro das águas as sombras-luzes das profundezas dos mistérios. As histórias, lendas, boatos, dizeres amazônicos impreganados de futuro e prenhes de presente na pele lambuzada do rio cor-de-chá.
Tonta, respirando forte prá conter o desespero do deslumbre de ser-fazer história, procura nos desenhos da cidade-luminária vestígios do imaginário selvático, como se fosse a cidade espelho de futuras constelações nos céus das eras vindouras.
Viu no desenho longínquo, pontos de luz que lembram a flecha-chave de um índio, conduzindo a nova era. As icamiabas, translúcidas como a aurora, oferecendo seus muiraquitãs ao grupo dos 64 iniciados com impecáveis mantos, flutuando com seu canto coral no galope dos tambores sagrados, anunciado pelo toque dos berrantes de longínquos ritos dionisíacos. No sem tempo do átimo-segundo que o translumbre durou, viu o transferir-se de eras do planeta bonito que anoitecia, nascia para o tempo novo que chegou.
Sorriu, como sorriem aqueles que viveram os mistérios – que têm esse nome por que assim o são – e notou que as luzes se aproximavam, e a cidade se desenhava a sua frente.
A cinza cidade era a realidade que deixara a há 7 dias-milênios e agora regressava, talvez menos gris pois dentro dela tudo recoloria. A certeza do novo tempo acalentava o estrondo do chegar.
Em terra, a viagem mítica finda.
Que a nova era seja bem-vinda!
O mundo ainda roda-vibrava e balançava no coração acostumado ao rio, como se fosse o rio o mundo, o escuro das águas as sombras-luzes das profundezas dos mistérios. As histórias, lendas, boatos, dizeres amazônicos impreganados de futuro e prenhes de presente na pele lambuzada do rio cor-de-chá.
Tonta, respirando forte prá conter o desespero do deslumbre de ser-fazer história, procura nos desenhos da cidade-luminária vestígios do imaginário selvático, como se fosse a cidade espelho de futuras constelações nos céus das eras vindouras.
Viu no desenho longínquo, pontos de luz que lembram a flecha-chave de um índio, conduzindo a nova era. As icamiabas, translúcidas como a aurora, oferecendo seus muiraquitãs ao grupo dos 64 iniciados com impecáveis mantos, flutuando com seu canto coral no galope dos tambores sagrados, anunciado pelo toque dos berrantes de longínquos ritos dionisíacos. No sem tempo do átimo-segundo que o translumbre durou, viu o transferir-se de eras do planeta bonito que anoitecia, nascia para o tempo novo que chegou.
Sorriu, como sorriem aqueles que viveram os mistérios – que têm esse nome por que assim o são – e notou que as luzes se aproximavam, e a cidade se desenhava a sua frente.
A cinza cidade era a realidade que deixara a há 7 dias-milênios e agora regressava, talvez menos gris pois dentro dela tudo recoloria. A certeza do novo tempo acalentava o estrondo do chegar.
Em terra, a viagem mítica finda.
Que a nova era seja bem-vinda!
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