dentro de uma caixinha.

a caixinha dentro de uma outra maior.

essa outra trancafiada
com cadeado de um segredo.

(o segredo eu só contei pra uma sereia
que mora num além mar esquecido
e depois também eu esqueci)

isso tudo num pote, fechado a vácuo
(de ilusão)
com babadinhos retrô.

o pote está guardado
dentro de um armário
de madeira de lei
(com ornamentos na porta
e lindos puxadores de latão).

o armário no sótão trancado
de uma mansão de mil quartos
com lindos afrescos nas paredes
(contando histórias de animais sonhados
de travesseiros que são pontas,
de flores inventadas,
pirulitos e beija flores)

a mansão é uma ruína sub-marítima
(que ainda não foi encontrada
por nenhum escafandrista
mas amplamente visitada
por ondinas e nereidas)
fortemente guardada
por um furioso tritão.

essa ruína fica num mar longíquo
(e muito bonito
onde a luz bate violeta
cor de transformação.)

mar de um planeta ainda não descoberto.

de uma outra galáxia espiralada

tão longe tão longe tão longe

que só se chega, se se vai
com sonhos mais puros na mão.

é aí
que a partir de agora
protegido de roubos abruptos

meti

meu coração.




Chamo-me agora tufão
E dessa diminuta altura conclamo os ventos
Dos raios, sou o trovão barulhento
Fúria varrendo os mares
Onde dantes repousava meu corpo
Onda era meu corpo, o olhar
é sangue-som a ventar
Balanço, onda, marejar
Corro por entre a noite sem luar.

Pois sou em diante vento
Éter estelar
Ventania cósmica, queima-pulsar
Asteróide, palavra, brisa,
farfalhar
de riso e pranto no meu cantar

Sou aquela que sacode
balança, faz quebrar
Transmuta, transforma, faz estancar
arrepia na coluna
quebra pilar, abala a estrutura logo ao chegar
Espalha o que não é firme no ar

Se são ventos de boas novas
Que trago ao passar
Só os que forem comigo poderão julgar:
é por detrás das minhas asas
que me mantenho no ar
se ousar me querer,
se quiser me ter,
vai ter que agüentar.

De não fazer planos futuros
Me refundei
De assim
me olhar em espelhos retorcidos para mim
rir de mim.
Devagar, assim.

De não fazer planos futuros
já construí miríades de lares
em outros lugares
dentro de mim.

(Cada vez que me deixares
sairá um poema?
E se forem muitos
pena
vais deixar-me mesmo assim)

de não fazer planos futuros
foi meu coração além:
construí planos eternos, meu bem
(se é que eternidade pode ser leve
porque se nunca termina e nunca principia
fica suspensa no girar da roda da vida
espaço-tempo redesenhado pelo amor)

Não tenho medo de usar essas palavras
eu fui lá e vi o que era!
Era amor, com essas letras
como ele se manifesta é o que veremos
é a aventura.
É Ítaca longínqua nunca chegando
apesar de estarmos à sua procura.

Escrevo poemas então
para quando chegares
para quando partires
para teus acordares
E rires.
E quando esgotar o lirismo

Se é que um dia finda
como é eternidade
Seja o que for
Te amarei ainda.

O passado dói na ossadura
Meus ossos doem na sombra do passado
Osso é da sombra
Nunca canto de luz
não resolve.

Dói só dói
quando eu esqueço
que ossatura é estrutura
se o osso dói
e se só dói
seu amor corroeu
eu liberto
e ele já se foi.
Por que não podemos sentar nós dois, meu ex-amor
Aos pés um do outro e chorarmos
Olharmos os olhos tristes da despedida
e perceber: que a vida transformou nossas vidas?
Deixar correr o fado e o fardo da vida a dois
dura de dor na sombra, deixar que o sol entre e ilumine:
que a ruína proclamada se desfaça em reconstrução
você num outro dia, proclame belezas e não durezas
e eu parta pro meu futuro - em talvez - outras paragens
Choremos, meu ex-amor, pois é hora
e sabíamos nas entrelinhas que eu partiria.


A partida foi perdida.