Quieta
examino meu avesso
cuidado

queria que estivesses aqui ao meu lado
e que pudesses ver
essa sombra-luz
retundente
doída
(ah, se pudesses)

sinto saudade do que seremos
(se nos permitirmos)

tive sonhos azuis
eram borboletas
e vagaluns
(o não-permitido é possível em sonhos?)

ou ainda: quem me permite?

sinto a rispidez dos gestos
lêem em mim a fagulha?
novamente tateio no escuro:
dentro da alma
dentro de alma
dentro.

na alma?
olha:


tem uns coisas em mim que não são você.
nuvens chuva dia nublado mais chuva um monte de papéis um passado voando pela casa tantos anos como sou velha, inefávelmente velha eu pensava e depois tanto buraco tanto a fazer uma vida toda sou tão nova e já estou aqui com essas questões de idade e ainda assim me acham nova demais prá isso ou aquilo e eu aqui parada esperando uma mão só um resgate um acalanto um oi, olha tá tudo bem, não compreende, não vê? não percebe que tem tantas mais coisas rolando rondando rodando o lugar além disso dentro de mim um monte de incertezas tudo bem mas as certezas são mais duras de segurar do que as incertezas eu pensava assim que eu podia ter feito outras escolhas em tudo, fazer algo mais fácil da vida mas também não quero, queria ter tido já filhos to com vontade de ser mais velha ainda do que já sou.


tempo

tempo tempo

ilumina, dói.

e não existe.
das dores que sinto restam poucas:
das costas
no dedão do pé
na cabeça (quando não como rúcula)
Doía.
e larguei os dedos prá escorrer de mim a dor
no papel, não na tela.

Doía tanto.

Ela num canto, dança.
Eu, numa dança-canto.

Vale a pena decifrar esfinges?
vale, moça senhora sentada na minha vida?

E eu aqui, com as duras patas de leão
e as lamúrias de séculos sem mim.

Onde andei?
Onde foste.

Te procurei tanto pela casa.

Doía, doía muito.