É fato:
há entre eu
e quem eu amo
quilômetros.
e eles me doem
na tarde fria

faz sol.
mas o entardecer
promete frio
(me agasalho de tristezas)

porque tudo cheira a morte?
se amor é redivivo e se reinventa
se o amor ainda tenta
e teima em me assolar
me avassala
por mais que eu diga:
vai embora amor,
me deixa respirar
para de sufocar

"não me arrebatou"
há que se aceitar

nunca pôde a poesia abrir um peito a força ainda que se esforce

aqui há um tórax
de onde o coração
acabou de partir
e partido foi
além
mar-estelar de mim
guardar-se para não me ferir

meu coração tem mais sóis que eu

não há mais lágrimas:
tudo foi sentido
e sem sentido
perdi tudo
e agora perdi tu

mas não me queixo do amor:
tive poesia e esta durou
agora é só o coração só
que busca,
sentido,
no caminho eterno que restou.

será que era eu aquele pardalzinho suicida
em vôo cego no teu mar?


se achares este jeito
de dormir pra sempre
leva-me junto no teu sono?
eleva-me
sonha comigo e habita
minha noite, intacta
como na memória dos pardaizinhos

um sonho em brumas
onde eu possa amar-te em paz
e mais
tu cavalgarias num pégasus lilás
e eu num beija-flor arco íris
e eu viria a teu encontro
ao ires

colheríamos flores
bromélias e acalantos
nunca mais haveria pranto
e só sorriríamos
isso num nunca acordar
num para sempre adormecido
ao teu lado
rente a um rio
que nunca cessaria
de correr para o mar

tomaríamos com golfinhos
longos banhos
(e os botos também participariam)
depois nos levariam
pra perto dos tritões e ondinas
desejaríamos nunca de lá sair
e que nunca raiasse o dia

(também nunca ninguém saberia
nosso intrincado segredo:
de que te desejo para além do tempo
e que és um presente momento)

e mesmo assim
quando o sol insistisse em romper os céus
nós ainda em profundo sono
nos abracaríamos em sonho
e nunca morreríamos.
A coisa-poema
deu-se como num dia de sol muito forte
em que ardem os olhos e os poros
de eu te amar num instante-conectado à eternidade
enquanto sol batia forte em suas costas
lambendo cabelos&peles no contra luz
desenhando a aura-anjo-contorno-brilhante tatuado na minha retina
Você ria de algo muito bobo, como um trocadilho
e o riso completava o quadro
por tudo, onde o passado não existe
onde não existe medo nem futuro
onde tudo ainda é potência
amei-te e amo
esperando que o sol se ponha solene
como em antigas falésias.
Tudo leve, tudo macio
tudo lívido, tudo vívido
por tudo vivido
já vale um dia ao sol.
pequeno poema respiração:

(se eu pudesse eu dizia, e
isso é o coração querendo
o que os dias dizem não)

abre um vácuo no tempo e retoma
retorna
me acha aí dentro
procura
não me perde
não deixa
que o tempo
a vida
as coisas
empaquem
abandonem
destruam

o que era quase amor?

ou o quase era maior
que no estilhaço sufocou?

então abre o vácuo tempo
acha a brecha temporal
e me mete aí dentro
(que o resto se resolve:
tudo que ficou suspenso
os dias os tempo a distância
os outros o julgo o silêncio)

acha uma ilha no seu peito
me deita lá com livros
cães e gatos e café
e me visita no entardecer
que te faço rir um pouco
que te deito nos meus braços
e fico comentando os filmes
(não,isso eu nunca mais faço)

eu sei fazer de novo
eu posso ainda fazer
mas
eu posso também
só deixar escorrer.
tenho uns nojos de mim
tenho assim
medos de mim
tenho umas partes escuras sim
escusas sombras de mim

e quando olho falo penso ajo assim
com nãos querendo dizer sins
eu reajo mal.
eu reajo, meu bem e mal enfim
eu reajo com nojo de mim.

e se reativa for a dor no fim
que ela pare na sombra
que ela caiba em mim
pra que assim
mesmo o nojo, a feiúra,
o que me é nocivo e ruim
pare em mim
não movendo a roda kármica
me te libertando enfim
mesmo fora
mesmo longe
e mesmo assim
íntegra,
sem medo do fim.