Cedo em São Paulo

Eu disse que gostava de acordar cedo. Não menti, não. Eu levanto cedo prá ver minha casa, meus gatos, meus cachorros entendendo o dia. Acordo cedo porque gosto de surpreender o sol. As seis e meia todos em casa já comeram. As sete passo o café. Tomo banho. Escrevo. As oito a casa está limpa e de pé.
Na minha casa-paraíso, o sol nasce devagar e faz tanto silêncio no mundo que dá prá ouvir ele espreguiçar. Uns passarinhos revoam, atrás de minhocas e fugindo do olhar atento dos gatos 'a espreita. Gosto de andar na penumbra e deixar meus olhos se acostumarem aos pouco com a luz. Eu ouço o estalo das plantas começando a fotossíntese diurna. Dá prá escutar o despedir das estrelas no céus. Mesmo porque, lá o céu é estrelado.
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São cinco horas da manhã e estou em São Paulo. O barulho dos ônibus é o mesmo que as cinco da tarde. O sol vai chegar de repente, já atrasado. Não estou na minha casa. Essa casa, como a cidade, não descansa. Não há o que fazer, não encontro meus gatos, não ouço passarinhos, não existem plantas. Existo eu, um cedrninho e uma caneta. Muito barulho: é dia?
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Por que acordar tão cedo numa cidade que não dorme, numa cidade onde os cheiros, as casas, o dia e as cores são cinzas?
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São cinco e doze e eu já acordei. São Paulo não dormiu.
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PS1: Em pequena, a trilah sonora das mnhãs era o rádio do meu pai que gritava "a cidade não desperta/ apenas acerta/ a sua posição".
Ps2: Ainda bem que amanhã já é paraíso.

3 comentários:

Dani disse...

também adoro acordar cedinho, sentir o ar fresco e o silêncio.Todo mundo acordando, página nova, em branco... Aí, tô virando leitora desse blog aqui...

Ana Roxo disse...

Oba, sirva-se!

Aline Pereira disse...

Alguns paraísos são desconexos. Suspiro ao ouvir o estrondo que são os ônibos que começam a correr avisando que o dia está por chegar.
As vezes vou até a janela, a alface geralmente está deitada lá observando a grande quantidade de criaturas diversas que passam ali.
Apoio-me no peitoral e meu braço sobre ela no seu pelo macio.
E ela aproveita para esfregar seus bigodes em mim como quem pedindo ajuda para entender o caos da cidade começando a existir de forma tão diferente a cada minuto.