Noite de São Bartholomeu

Tudo gritava dentro de mim e eu não sabia por que. Como se antevisse uma coisa dessas, dada a tragédia.
Doía um pouco a barriga dela, eu acho, e tinha sangue pelo quarto. Era hoje mesmo, como foi.
Pariu um gato cinza ou quase preto, muito pequeno, menor do que podia ser um gato quase cinza, ou preto. Não o queria. Em meio a outros filhotes grandes, olhos abertos, um quase feto preto miava. Um rebento.
Eu sentia medo. Ela agia naturalmente, como se deixar sua cria a mercê do por vir fosse o natural naquele momento. Naquele e noutros. A natureza é sábia, não? Não dá prá saber por quê isso aconteceu. Por mais que eu queira.
Foi muito rápido, e eu já sabia. Ela saiu, veio a outra, pantera negra implacável. Duas lambidas e uma bocarra que abocanhou bem a cabeça. Fez dois furos. Em meio a meus gritos de pavor, ela saiu, deixando aquele filhote enjeitado pulsando sangue. Pegamos no colo. Não no colo, nas mãos, diminuto moribundo. Ele respirava, miava. Depois parou de miar, mas arfava. Não parava de sair sangue da cabeça dele, e dor e lágrimas de mim. Durou uma hora de agonia. Morreu.
A mãe foi lá, olhou, não achou grande coisa. Nós achamos.
Não sei se ela pariu outros, antes ou depois que tiveram o mesmo fim, ou um fim mais completo: devorados.
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De manhã, a mãe que rejeitou sua cria, amamentava os filhotes da assassina de seu rebento.
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Conviver com animais é os amar como são. São mais tetas para esses sete filhotes, são menos bocas para dividir o leite.
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PS: Por que não existe uma palavra específica para a mãe que perde seu filho, como existe a palavra orfão, para o contrário respectivo?

Um comentário:

Fabiana Vajman disse...

Uma vez a minha gata - que viveu conosco durante quinze anos - colocou seu filhotes recém nascidos na cama da minha mãe. para aquecê-los. Minha mãe, dormindo, esmagou e matou todos... A gata passou dois dias procurando por eles, miava, sofria ansiosa.
porque não existe uma palavra específica para uma mãe que perde seu filho?